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Fôlego

Jonatan Magella

A senilidade ainda não o fez esquecer: quem vive e quem morre é decidido por meros detalhes. Por exemplo: ele, Domingos, está saindo do hospital. Vivo. Curado e com a filha à retaguarda. Mas sabe, por informações virtuais, que seus amigos nem conseguiram entrar em um. Coitados. Não tiveram acesso à rede de saúde. Nem a uma filha bem sucedida.

O sucesso da filha, claro, foi decidido nas minúcias: ela, aos dezesseis anos, chegou em casa dizendo que queria fazer uma prova. Que precisava de cinquenta reais. Os amigos de Domingos disseram: bobagem, homem, bobagem, dinheiro mal gasto, um galo dá pra uma cesta básica. São esses amigos que agora estão nas calçadas à espera de respiradores. Mas Domingos não os culpa. Pelo contrário: sente-se, em parte, mal por ser o único da rua a ter um bom atendimento. Porque a filha passou naquela prova. E depois em outra, em outra e em outra, e agora passou, junto com o pai, pela maior prova da vida dele: não morrer sem ar, já que o ar não queria mais entrar no nariz dos velhos.

Na porta do hospital, havia um táxi à espera. Não existe mais o costume de manter vidros fechados. Domingos não gosta do vento frio de inverno que entra. Arde a pele. Arde como o vento cortante no nariz ou como a brisa do mar depois da insolação. O vento parece uma faca invadindo os poros. Mas Domingos resiste. Agora, com seu pulmão praticamente curado, sente até vontade de fazer uma travessura.

Podemos parar na praia, filha?

Ainda não, pai. Acabou a pandemia, mas elas estão fechadas pela última semana. Tudo bem?

Tudo bem.

Semana que vem eu trago o senhor, diz a filha, a melhor filha que se pode ter.

O carro contorna um quarteirão residencial, bonito e cheio de árvores frondosas. Ele vai ficar no quarto de hóspedes. Não dá para morar sozinho nessa época. Ele resistiu, como de praxe, mas torcendo pra ela não mudar de ideia. Ela estará sozinha em um quarto, ele no outro: a solidão compartilhada é menos dura. Pior é a solidão de seus amigos: à porta do hospital, sem família, sem médico e sem ar, que não queria entrar no nariz dos velhos. Na porta de casa, ainda de máscara, Domingos respira fundo. Talvez seja a primeira vez em semanas que consegue preencher o pulmão todo. É com prazer que percebe o ar passando pelas narinas, traqueia, brônquios e bronquíolos. O ar está lá dentro, depois de negar-se por semanas. Outra travessura passa pela sua cabeça: prender o ar nos pulmões.

Não deixar que saia. Sim, o ar ficará em quarentena dentro dele. Será a vingança: se Domingos foi internado, se precisou ficar isolado durante a pandemia, foi por falta de ar; ou melhor, o ar estava disponível, tinha ar no mundo, ele só não queria entrar no nariz dos velhos. Agora Domingos iria dar o troco: castigaria o ar com isolamento social.

Mas a política extremista durou só alguns segundos. Domingos começou um princípio de vertigem e ficou tonto. A filha, preocupada, quis saber o que houve. Nada, querida. Vamos para o quarto.

Além da cama grande, onde se deitou, e da mesinha de madeira, onde fez quatro boas refeições, havia uma janela enorme. Ali tomou o sol da tarde, sentindo o espaço um pouco mais arejado. Havia também acesso a uma televisão com canais de esporte, onde assistiu a volta dos treinos dos jogadores, e um bom sinal de wi-fi, para ter notícias. Mas, embora a filha viesse de hora em hora saber se estava tudo bem, a solidão era dolorida. Por isso retomou a travessura: aprisionar o ar outra vez. Depois de treinar, não dava mais vertigens. Foi aí que chegou ao seu celular a confirmação: mais dois amigos foram infectados e ainda não tinha conseguido um hospital. Mesmo no final da pandemia, os últimos doentes ainda sofriam. Domingos decidiu parar com a travessura: nem bem preenchia o pulmão com ar, libertava-o o mais rápido possível. Era só um detalhe, imperceptível à sua filha, mas quem sabe o ar voltasse a querer entrar no nariz dos velhos que ainda restavam.


Índice – Especial Covid-19 #1

1. Aos leitores

2. Reportagem: Pesquisa prevê maior risco de expansão da Covid-19 na Baixada

3. Cia de teatro iguaçuana produz ‘radioteatro’ para o isolamento social

4. Galeria: Olhar da Baixada – fotografia

5. Fique atento!

6. Conto: “Fôlego”, de Jonatan Magella

7. Expediente

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