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Por trás da coroa

Concurso Miss Baixada Fluminense 2017 reuniu representantes das 13 cidades e lotou quadra da Beija-Flor, em Nilópolis

Itala Barros e Douglas Mota

Ao se pensar em concursos de miss é quase impossível não pintar uma imagem cheia de preconceitos. Mulheres fúteis e competitivas se digladiando para se firmarem como a mais bonita de todas. Pois pode esquecer de todo esse cenário negativo quando se trata do Miss Baixada 2017.

Acompanhamos o evento do camarim, onde chegamos cerca de duas horas antes da competição começar. Ao entrar no pequeno camarim azul e branco na quadra da Beija-Flor, nossa primeira impressão já foi um choque de realidade em nossas conjecturas. Em vez das típicas competidoras vistas em filmes de miss, encontramos treze meninas socializando e se ajudando a vestir as roupas e fazer a maquiagem.

Mas um ambiente descontraído não é garantia de que tudo corra em ordem. A primeira crise foi quando o penteado de Larissa, a Miss Guapimirim, perdeu os cachos. Entre um mutirão de chapinhas, babyliss e fixadores de cabelo, a competidora ruiva continuava com semblante sério.

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As que estavam prontas aproveitavam o momento para alimentar suas redes sociais. Vídeos para o Snapchat e para os stories do Instagram reinavam. Uma das competidoras a fazer a cobertura mais completa para os seguidores era Fernanda, a Miss Caxias, que, apesar da super simpática, com voz de menininha, era a rainha das selfies de olhar penetrante.

O Miss Baixada nasceu em 2007, fruto da engenhosidade da publicitária Patrícia de Paula. A região passara por um momento traumático, a maior chacina da história do Rio de Janeiro, quando 29 pessoas morreram em Queimados e Nova Iguaçu, em março de 2005. Para ajudar a recuperar a autoestima local, Patrícia criou um concurso de miss diferente, em que a beleza é coadjuvante, e as candidatas passam por um preparo que inclui até um workshop de história da Baixada, com o professor Gênesis Torres.

Enquanto a Orquestra Sinfônica da Baixada não abria o concurso, o salto alto começava a apertar o pé das meninas e o nervosismo reinava, ouvíamos as animadas histórias nos bastidores.  As candidatas contavam sobre as suas vidas e mostravam a diversidade do concurso, falando desde a dificuldade da faculdade de medicina iguaçuana até a trabalho hercúleo de fazer o trajeto Seropédica-Nilópolis. Uma das mais falantes durante o papo era Bárbara, a Miss Nova Iguaçu. Quanto maior a proximidade do momento de entrar na passarela, maiores eram a conversa e a gesticulação que acompanhava suas palavras.

Espelho disputado para retoques de última hora. Foto: Itala Barros/BaixadaZine
Espelho disputado para retoques de última hora. Foto: Itala Barros/BaixadaZine

Em meio a uma das conversas, fizemos a improvável descoberta: misses comem salgadinhos, sim! E ainda adoram churros. Prova disso foi a caixa de quitutes que foi atacada pelas meninas. Mais um preconceito quebrado: é possível participar de concursos e não fazer dieta. Pelo menos assim relataram, dizendo ainda que um dos grandes assuntos no grupo de Whatsapp que haviam criado era comida, como hambúrgueres e docinhos.

Enquanto não chegava  a hora de sair do camarim, a Orquestra Sinfônica da Baixada Fluminense levou o erudito àquele espaço símbolo da música popular. O conjunto de instrumentistas foi acompanhado de um tenor, que cantou clássicos como “Hallelujah”, de Leonard Cohen, e “Somewhere Over The Rainbow”, trilha do filme “O Mágico de Oz”. A Orquestra faz parte do Projeto Excelência Música e Artes da Baixada, de Meriti, que também promoveu desfiles com os formados do curso de modelo e manequim e os Miss e Mister Excelência 2017.

Eli Ferreira, que passou pelo mesmo concurso em 2009, observa suas ‘calouras’. Foto: Itala Barros/BaixadaZine
Eli Ferreira, que passou pelo mesmo concurso em 2009, observa suas ‘calouras’. Foto: Itala Barros/BaixadaZine

Também estavam lá participantes  e vencedoras de edições anteriores do concurso. Então portadora do título, Victória Lessa veio para se despedir da faixa que conquistou por Nova Iguaçu em 2016. Ela já estava neste mundo fashion desde antes, porém. Aos 12 anos começou a modelar e, após o Miss Baixada, posou para lojas locais, como RD Lay e Megabras. Só que agora seus planos viraram 180°, e a miss decidiu tentar seguir carreira militar. Sua colega Eli Ferreira ficou triste ao ficar em segundo lugar em 2009. Mas hoje, o Brasil inteiro conhece o sorriso que paralisou a plateia: ela interpreta a personagem Tiana na novela das seis, “Tempo de amar”, na Rede Globo.

Depois de mais de uma hora de atraso, era chegado o momento de subir ao palco. Em  minutos o camarim cheio de risadas e conversas se transformou em uma antessala da semana de moda. Todas começaram a prestar atenção nos mínimos detalhes de blusas, kimonos e bodys. As maquiagens foram cirurgicamente retocadas, e nenhum frizz no cabelo passou despercebido pelas competidoras. Era hora do show, e todas deveriam estar com as faixas pretas que carregavam o nome de seu município.

Lá fora, na quadra da Beija-Flor de Nilópolis, familiares, amigos e demais conterrâneos vestiam roupas com os rostos de suas musas e estendiam faixas. Na miscelânea de sons, ficou impossível detectar qual torcida gritou mais alto. A maior parte daquela multidão eufórica chegou ali nos vários ônibus fretados, que começaram a estacionar nas redondezas desde o início da tarde.

Apreensão antes de entrar no palco. Foto: Itala Barros/BaixadaZine
Apreensão antes de entrar no palco. Foto: Itala Barros/BaixadaZine

Depois da primeira entrada, os ânimos suavizaram e todas encarnaram uma persona mais profissional. A próxima etapa do concurso seria de trajes de banho, o que aflorou algumas inseguranças. Algumas latas de laquê surgiram das mochilas e foram passadas nas pernas para “dar firmeza na pele e esconder as celulites, truque da Anitta”, disse a miss Magé, enquanto acabava de arrumar o maiô listrado que foi arrematado com uma flor branca.

Enquanto isso, no palco, outras modelos tomavam conta. Tendo a inclusão como norte, o Miss Baixada também promoveu concursos paralelos para outros públicos. No Miss Baixadinha, as crianças encheram de graça e fofura o templo nilopolitano do samba. Já as Misses Baixada Master mostraram que a idade não é um empecilho para a demonstração de charme e beleza.

Ao que tudo indicava, o concurso seguiria sem grandes sobressaltos, só faltava a roupa de gala e, finalmente, a ganhadora seria coroada. Algumas competidoras começaram a tentar estudar para a entrevista nos últimos minutos, com um desespero que só quem fez uma prova sem ter certeza que sabe a matéria conhece. Uma das mais nervosas era a Miss Japeri, que não sabia se daria conta do recado.

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Entre ensaio de respostas, tules e rendas, surge um incidente que muda todo o clima dos bastidores. O vestido marfim de Raquel, a Miss Queimados, aparece com zíper ruim. A menina, que havia sido uma das mais tranquilas até aquele momento da noite, tenta subir de todas as formas. Algumas competidoras tentam ajudar, mas em vão. Chegam pessoas da organização para acertar o zíper, e Raquel, como se estivesse rezando, junta as duas mãos e respira fundo. Mas não é essa noite que a Nossa Senhora dos Aviamentos intercede pela menina, não há jeito de fazer o zíper subir. Quando algumas das competidoras já estavam no palco e a entrada na Miss Queimados deve acontecer em pouco tempo, surge a salvadora da pátria: a costureira responsável pelos vestidos chegou com um kit de linhas e, em segundos, costurou o vestido no corpo dela. O reparo foi feito de forma tão ágil que ainda houve tempo de Raquel não só respirar aliviada, como dar um tapa no penteado.

Amizade substitui rivalidade entre as misses. Foto: Itala Barros/BaixadaZine
Amizade substitui rivalidade entre as misses. Foto: Itala Barros/BaixadaZine

Passada a última etapa, era só esperar o resultado. Entre dúvidas e apreensão, o clima geral era de dever cumprido. As meninas já confraternizavam e se abraçavam. Mas algumas estavam cabisbaixas. Bárbara estava em um canto se lamentando de ter citado o lixão em sua resposta, mas se justificava repetindo que não queria que a Baixada fosse lembrada só como depósito de lixo. Não se sabe se a menção de dejetos foi decisiva, mas minutos depois, para a sua surpresa, quem recebia a coroa era a Miss Nova Iguaçu.

Fotos: Itala Barros/BaixadaZine

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