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Folia de Reis

Rafael Diamante

Hoje, folheando um livro de folclore, veio à mente a lembrança da única vez na vida em que eu vi uma Folia de Reis. Foi quando eu morava em Vaz Lobo, subúrbio do Rio, bairro em que nasci. Eu devia ter uns oito anos. Vivia em uma casa simples, com um terreno enorme que dava para duas ruas. Uma delas era uma via plana, a outra, uma rua subida e meio acidentada, que terminava bem lá no alto, no morro da Serrinha.

Na rua alta foi morar um velhinho que tinha uma Folia de Reis e que ensaiava quase todos os dias no seu quintal. Às vezes ficavam até tarde da noite, e meu pai, que acordava muito cedo para trabalhar, vivia reclamando com o velhinho, pois com aquele barulho não conseguia dormir.Para mim, que era criança e não precisava acordar tão cedo, aquele folguedo em nada me incomodava. Bem ao contrário, quase sempre deitado em minha cama, embalava meus sonhos ouvindo os ritmos da festança, criando mil fantasias.

O que realmente me incomodava era a curiosidade! Eu morria de conhecer a tal folia!

Pensei em pedir ao meu pai, mas com certeza ele não deixaria. Então um dia eu decidi fugir. Atraído pelo batuque da banda, eu tomei coragem. “Pé ante pé”, saí do quarto,  depois pulei o portão, ganhei a rua e fui ver o ensaio.

O  quintal estava repleto de gente! O pessoal da banda formado a um canto usava uns quepes com abas de plástico preto e que na frente tinham umas placas brilhantes de metal. Também vestiam uma espécie de uniforme, com calças compridas e paletós azuis-claros, meio “surrados”, mas que ainda guardavam um certo viso pelas largas ombreiras cheias de franjas e de botões dourados.

Avistei o velhinho que era o chefe. Envergava uma camisa de linho branco de mangas compridas e carregava no peito emblemas, medalhas e fitas. Com voz firme, ele entoava alguns cânticos, e ao seu comando a banda parava ou voltava a tocar.

Em dado momento, alguém gritou que o palhaço da folia iria dançar. As pessoas se agitaram e abriram passagem. Lembrei que eu já estava demorando demais, e lá em casa podiam perceber a minha ausência, mas queria ver o tal palhaço dançar!

A banda recomeçou agora tocando mais rápido, num ritmo frenético, e de repente surge no meio do povo uma figura grotesca, coberta com uma roupa esfarrapada, feita de retalhos de panos coloridos. Ele dançava, virava cambalhotas, se contorcia e dava saltos mortais. No seu rosto, uma máscara! Uma máscara feia, esquisita, muito esquisita!

Senti muito medo e, apavorado, corri para casa. Naquela noite, igual ao meu pai, de tão assustado, também quase não dormi.

Pouco tempo depois, o velhinho mudou-se lá do morro e, com ele, mudou-se a Folia.

Porém, até hoje me assusto quando lembro da imagem daquele palhaço esquisito que tinha a cara de mau…

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