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“É preciso ‘produzir cidade’ na Baixada”, defende economista

Henrique Rabelo, especialista em economia do Rio de Janeiro, traz ideias para gestores da região

Douglas Mota

Distrito Industrial de Queimados. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine
Distrito Industrial de Queimados. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine

Os últimos anos mostraram aos moradores de cidades da Baixada que a economia importa. Da pior forma possível. Salários de servidores atrasados, materiais e medicamentos em falta nas unidades de saúde e desemprego alarmante pesaram nas costas dos cidadãos. A palavra “crise” virou figura comum no vocabulário de gestores públicos para justificar falhas nos serviços públicos. Tamanho pesadelo poderia ser menos traumático se a Baixada tivesse mais atividades produtivas e, consequentemente, mais empregos e renda. Para o economista Henrique Rabelo, faltam iniciativas que estimulem os negócios por aqui.

E ele sabe do que fala. Chefe de gabinete do presidente do Instituto Pereira Passos – órgão da Prefeitura do Rio responsável pelo planejamento urbano da cidade –, defendeu em novembro, na UFRJ, a dissertação de mestrado “Estrutura produtiva e ocupacional na região metropolitana do Rio de Janeiro: características e transformações entre 2000 e 2015”. Para Rabelo, enquanto a vida não estiver boa para as pessoas, vai ser difícil atrair empresas. O que afasta indústrias são problemas bem conhecidos das pessoas, como a falta de saneamento e a precariedade das redes de energia e telecomunicações. Mas, além disso, é necessário melhorar a auto-estima dos moradores.

BaixadaZine: Quase todos os municípios da Baixada são cidades-dormitório. O que pode ser feito para mudar esse cenário?

Henrique Rabelo: A primeira coisa é “produzir cidade” na Baixada. A região urbana dessas cidades não é muito frequentada, as pessoas quase não vão para lazer. Tem que produzir uma cidade que seja boa para a população local. Com isso, melhora a autoestima coletiva. Tem um monte de trilhas, tem a Reserva de Tinguá e diversas áreas que poderiam ser exploradas, mas a população não valoriza. Guapimirim, por exemplo, tem o Dedo de Deus.

Henrique Rabelo é chefe de gabinete da presidência do Instituto Pereira Passos. Foto: Divulgação/IPP
Henrique Rabelo é chefe de gabinete da presidência do Instituto Pereira Passos. Foto: Divulgação/IPP

Outro problema é a infraestrutura: não tem água e esgoto direito, a rede de telecomunicações é ruim, a de energia elétrica é fraca. Isso prejudica tanto a população, quanto as atividades produtivas. Logo, não tem emprego na região. Nenhum município é relevante em termos de emprego em relação ao total da população. Se você comparar com a Região Metropolitana de São Paulo, percebe-se que o nível de ocupação lá é muito mais alto. Barueri tem mais emprego do que gente! Uma das causas (para a situação do Grande Rio) é porque eram duas unidades federativas diferentes até 1975 (o estado da Guanabara, atual cidade do Rio de Janeiro, e o do Rio de Janeiro, com capital em Niterói). Toda a estrutura produtiva e as principais rendas ficavam na cidade do Rio, ela recebia os impostos estaduais e municipais e revertia tudo para si própria. Na Baixada, o pessoal trabalhava no Rio, mas não gerava impostos para os municípios.

E isso não mudou muito…

“Tem que produzir uma cidade que seja boa para a população local. Com isso, melhora a autoestima coletiva”

O custo de fazer metrô até a Barra da Tijuca seria o mesmo de transformar as linhas da Supervia em metrô. É uma rede muito maior e que atende a muito mais pessoas: enquanto a Barra tem 300 mil habitantes, a Baixada tem 3,7 milhões. Também é importante a integração dos transportes Baixada-Baixada. O perfil é muito Baixada-Rio, até as rodovias são construídas nesse sentido. Em alguns casos é mais rápido ir ao Rio e voltar do que ir diretamente de uma cidade a outra da região.

Ao passar pelas principais rodovias, como a Dutra e a Washington Luís, tem-se a impressão de que a Baixada é uma região bem industrializada. Por que essas atividades não beneficiam tanto quem mora perto?

Distrito Industrial de Queimados: industrialização avançou, mas não é suficiente. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine
Distrito Industrial de Queimados: industrialização avançou, mas não é suficiente. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine

Tem alguma atividade produtiva, mas é muito pouca em comparação com o total de habitantes. Caxias, por exemplo, a taxa de emprego industrial, em relação ao total da população, é de 3,5%, apenas. E é a cidade que tem a maior proporção! Em Barueri, na Grande São Paulo, passa de 20%. No ABC paulista, gira em torno de 15%. Acho que falta qualificação das pessoas, mas acho que pode ter um trabalho das prefeituras de incentivar as empresas a contratarem mão de obra local. É melhor para os empregadores: os empregados vão gastar menos com transporte, ter uma qualidade de vida melhor. Talvez valha fazer um cadastro dos que estão procurando emprego e apresentar às empresas, fazer uma seleção prévia, como um RH, facilitando o recrutamento.

Iniciativas como a do Distrito Industrial de Queimados são importantes, mas essa política poderia ser reformulada. É muito na lógica de varejo: quem quiser, se instala. Seria melhor se fossem distritos mais focados em um setor, porque as empresas conseguiriam comprar os insumos em quantidade maior e por menores preços, haveria mais capacidade de interrelação entre as diferentes empresas e trabalhadores, aumentando o potencial de inovação.

“30% de Seropédica é vazia e poderia ser ocupada pela indústria ligada ao porto”

O governo do Estado não vê o Porto de Itaguaí como porto. Boa parte das políticas são feitas só para o Porto do Rio, que já está no limite. O de Itaguaí tem bastante espaço e o Arco Metropolitano. 30% de Seropédica é vazia, não é floresta nem nada, e poderia ser ocupada pela indústria ligada ao porto.

Porto de Itaguaí é subutilizado, segundo Rabelo. Fotos: Divulgação/Docas Rio e PAC
Porto de Itaguaí é subutilizado, segundo Rabelo. Fotos: Divulgação/Docas Rio e PAC

Minas Gerais já tem mais empregos que o Rio de Janeiro, a arrecadação de ICMS de lá é mais alta também. O PIB mineiro é mais baixo só porque temos o petróleo aqui. Quanto à estrutura produtiva industrial, o RJ já é o 5º estado. Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo estão na frente. Em 1985, o RJ era o 2º em empregos industriais, hoje é o 6º. Na década de 90, a cidade do Rio perdeu metade dos empregos industriais.

Há vários campi de universidades públicas de referência na Baixada (UFRRJ, UFRJ, Uerj, Faetec, Cefet…). Não são suficientes para melhorar o problema da qualificação da mão de obra?

Não que não sejam suficientes, acho que tem um problema de comunicação. E as federais atraem muita gente de fora. Apesar de estarem ali, não atendem as pessoas próximas, ainda mais com o Enem. A Rural tem um problema por ser… rural. A Baixada não é mais rural. Nenhum município tem menos de 80% da população vivendo em área urbana. Talvez seja o caso de transformá-la em Universidade da Baixada ou do Grande Rio. A Unicamp (em Campinas, interior de SP) foi colocada para ser um centro tecnológico. Hoje em dia, é uma super universidade daquela região. Apesar de a UFRRJ ser referência nos cursos ligados à agropecuária, como veterinária e ciências agrárias, a maior parte deles não são voltados a essa área. Mas o problema maior é que faltam empresas. A qualificação é importante, mas não é suficiente. Até porque os melhores qualificados vão trabalhar nos lugares que pagam mais.

Uma vez, quando eu estava no Ensino Médio, um professor de geografia disse que o Arco Metropolitano transformaria o estado do Rio na segunda locomotiva do Brasil. Por que isso ainda não aconteceu?

Arco Metropolitano precisa de ordenamento fundiário para atrair empresas. Fotos: João dos Santos/Aerofoto/Blog do Planalto e Divulgação/PAC
Arco Metropolitano precisa de ordenamento fundiário para atrair empresas. Fotos: João dos Santos/Aerofoto/Blog do Planalto e Divulgação/PAC

Falta estrutura, segurança e a legalização das terras. Já começa a ter loteamentos ilegais no entorno, e isso impede empresas de se instalarem. Com isso, diminui a possibilidade de arrecadação do município, afinal, moradia talvez pagaria apenas IPTU, enquanto empresas arrecadariam ICMS, ISS e gerariam empregos. Se permitirem essas moradias irregulares, vai aumentar o risco ambiental e vão transformar o Arco Metropolitano numa Avenida Brasil: engarrafada sempre. Se as prefeituras  não tornarem os terrenos exclusivos para uso industrial, vai ter ocupação lateral, forçando os caminhões a reduzirem a velocidade, e não vai ter espaço para fábricas. O projeto do Arco também previa o Comperj pronto…

“Se permitirem essas moradias irregulares, vai aumentar o risco ambiental e vão transformar o Arco Metropolitano numa Avenida Brasil”

Quais alternativas à indústria podem servir às vocações da Baixada?

Turismo é difícil, por causa da cidade do Rio, que já atrai bastante gente e oferece as mesmas atrações. É difícil conseguir turistas de fora, mas mais fácil é atrair os da própria Baixada, que muitas vezes não sabem que tem (atrações) ou pensam que são ruins. Não se trata só da construção de shoppings, é produzir ou melhorar os calçadões, os espaços públicos, para as pessoas terem orgulho. A partir disso, você tem uma série de serviços que atendem a população local que, além de gerar emprego e renda, deixam de perder espaço para outras cidades, como o Rio. Não precisam ir ao Rio comprar algo se já tem o serviço lá. Tem que tornar conhecidos os serviços que já tem e trazer os que ainda não existem na área. Nilópolis, por exemplo, tem um problema de que não tem mais espaço. Aí é preciso incentivar os serviços, para atender à população local e do entorno.

Fábrica abandonada em Queimados: declínio atingiu todo o Rio de Janeiro. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine
Fábrica abandonada em Queimados: declínio atingiu todo o Rio de Janeiro. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine

A Baixada era uma área rural até o século passado. Ainda que bem menos relevantes hoje, ainda existem pequenos produtores. Acha que vale a pena investir nesse meio?

Acho que tem que valorizar a agricultura familiar, que é pequena. Em grande volume, não dá para concorrer com outros estados. O custo da terra é muito alto, tem especulação imobiliária. A produção em pequena escala não justifica o custo da terra. Mas os pequenos produtores têm que ser valorizados. As escolas poderiam comprar deles, por exemplo. Além de os produtos não terem tantos agrotóxicos, isso melhoraria a renda do entorno delas e faria a população participar mais da rotina escolar.

Poucas cidades da Baixada conseguem notas boas nos índices de gestão fiscal e de desenvolvimento municipal, por exemplo, calculados pela Firjan. São muito dependentes de repasses da União e do estado. Como elas podem se cacifar para melhorar a saúde financeira?

Nova Iguaçu nos anos 70: estouro urbano no século XX. Imagens: Arquivo Nacional
Nova Iguaçu nos anos 70: estouro urbano no século XX. Imagens: Arquivo Nacional

Em primeiro lugar, atrair atividades produtivas, que geram imposto. Mas também precisam fazer concurso público para terem servidores fixos, que tenham experiência e capacidade. Vejo que, volta e meia, quando muda a gestão, demitem vários comissionados. Toda a informação de quatro anos é perdida. É necessário formar servidores que pensem a cidade. Tem que ter também uma coordenação entre as prefeituras. Para isso, a Câmara Metropolitana está sendo proposta,mas a proposta está parada há dois anos na Alerj… A entidade deve coordenar infraestrutura, transportes, legislação urbana. Em algumas áreas, as divisas não são claras. Serviria até para projetos maiores, como construir estradas e ruas melhores entre as cidades, fazer os ônibus circularem na Baixada em vez de só irem para o Rio.

Qual o papel da Baixada tem ou pode ter na retirada do estado do Rio do atoleiro?

O que poderia ajudar é o empreendedorismo, para atender a demanda local. Tem muitas coisas que compram de fora e que poderiam comprar localmente. Talvez um microcrédito poderia colaborar.

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