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Paraíso verde no Recôncavo da Guanabara

Em primeira pessoa, conto como foi minha viagem a Guapimirim e como políticas ambientais equivocadas colocam seus biomas em risco

Douglas Mota

Parte do rio Iconha, o Poço do Encantado faz jus ao nome. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine
Parte do rio Iconha, o Poço do Encantado faz jus ao nome. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine

Waldeinsamkeit é uma daquelas palavras em alemão que não têm tradução exata. “Solidão da floresta” é a mais próxima que se tem, mas seu significado, na verdade, é mais lírico. Remete à conexão entre o ser humano e a floresta, algo que só descobri em janeiro deste ano, quando visitei a cidade mais ao leste da Baixada Fluminense: Guapimirim, que tem mais de 70% de seu território cobertos por biomas, entre porções de Mata Atlântica e a área de manguezal mais preservada do estado do Rio de Janeiro.

Para entender melhor o que senti, é necessário ter noção do contexto dessa viagem. Foram cinco anos ininterruptos de trabalho até essas férias. Uma rotina extremamente urbana, comum à maior parte de nossos conterrâneos. Poluição atmosférica e sonora, transporte coletivo extenuante, cidades disfuncionais, ondas cada vez mais intensas de calor. A vida na metrópole é um ralo por onde escorre nossa potência de vida.

Acrescente a essa combinação a crise de abastecimento de água que acometeu o Grande Rio em pleno verão. A água tratada pela Cedae oriunda do rio Guandu ficou com cheiro e gosto ruins, de terra, o que mais tarde pesquisadores da UFRJ descobriram ser causados por fezes humanas, não a famigerada geosmina. Todos os aspectos, ainda que simples, da vida me faziam querer fugir. Felizmente, não precisei ir para muito longe.

Contratei pacotes de passeios da GuapimirimTur, um negócio social criado por empreendedores locais, e estreei o Circuito das Cachoeiras, pacote que inclui visitas a cinco quedas d’água espalhadas pela cidade.

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O Poço do Padre (ou do Escorrega) foi o primeiro, no bairro Barreira, já na Serra de Guapimirim. O ponto do rio Soberbo deixou uma excelente primeira impressão com a água límpida. Depois fomos ao Poço do Encantado, no bairro Garrafão, que faz parte do rio Iconha. No caminho, vimos parte da história do país, com a ferrovia, hoje desativada, que ligava o Rio de Janeiro a Teresópolis, e os caminhos com calçamento pé-de-moleque, construídos por escravizados para chegar às Minas Gerais no século XVIII.

De lá, seguimos para as Piscinas do Rio Bananal, no bairro vizinho de Monte Olivete. São literalmente piscinas, construídas por pessoas no leito do rio. O acesso é um tanto difícil, pela beirada do rio, já que a margem foi loteada no passado e as propriedades bloqueiam os acessos mais fáceis.

Também no Iconha, a parada seguinte é o Poço da Concórdia, no Limoeiro. Partimos em seguida para o bairro Caneca Fina, onde um belga se apaixonou pelo lugar e construiu uma casa, atualmente em ruínas, que tinha uma pequena usina hidrelétrica próximo à Cascata da Gruta, dentro de sua antiga propriedade. O pessoal da agência de turismo conseguiu localizar um herdeiro, na Europa, para negociar uma possível reforma do casarão histórico e sua transformação em um ativo turístico da cidade.

As piscinas do rio Bananal foram construídas por pessoas no leito do curso d’água. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine
As piscinas do rio Bananal foram construídas por pessoas no leito do curso d’água. Foto: Douglas Mota/BaixadaZine

Como água pura e mata fechada nunca são demais, no dia seguinte fomos aos Cânions do rio Iconha: um circuito cheio de piscinas naturais esverdeadas, com paredões de pedra e sete paradas para banho. Em uma delas foi possível observar baratas-d’água, que não só não têm nada a ver com os insetos do esgoto, como são um indicador de que a água em que estão é potável. Imagino que não existam mais no rio Guandu.

O contraste com a vida cotidiana era claro. Graças ao ar puro, minha respiração funcionou sem problemas. Nada de rinite e crises alérgicas. A água fresca, abundante e sem nenhum produto químico, além de deliciosa, ainda deixou minha pele macia e hidratada. Não é magia nem tecnologia, só a natureza, que um dia foi devastada na região e tomou de volta o que é seu. Quase toda a floresta que visitamos é mata secundária, isto é, não é a vegetação original. Um dia, o manto verde de Guapi foi derrubado para fazer carvão vegetal. A madeira também abastecia o Rio de Janeiro.

A última excursão foi em outro bioma, o mangue, que também já foi destruído no passado por oleiros em busca da argila do solo. Hoje recuperada, aquela planície de 14,3 mil hectares coberta de vegetação baixa, rios ziguezagueantes e riquíssima biodiversidade pertence à Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapi-mirim, também chamada de Pantanal Fluminense. A unidade de conservação atua em conjunto com a Estação Ecológica da Guanabara (ESEC), porção mais preservada da Baía em que a cidade do Rio de Janeiro nasceu.

De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a área que inclui o mangue, seus rios, a floresta alagada e o fundo da Baía de Guanabara possui 242 espécies de aves, 167 espécies de peixes  – 81 marinhos e 86 fluviais -, 34 de répteis e 32 espécies de mamíferos, inclusive as lontras arredias e  camufladas que vi na beira dos rios mas que não consegui fotografar e filmar.

Paraíso em risco

As estrelas do passeio também eram mamíferos, mas cetáceos. A cada vez menor população de botos-cinza da baía, símbolo do Rio de Janeiro, se refugia por lá. Os simpáticos golfinhos já formaram uma população de aproximadamente 800 nos anos 1990, mas a maioria fugiu dali rumo ao oceano, longe do esgoto, do lixo e dos navios barulhentos que atrapalham seus sistemas sonoros de localização e tornam a água mais turva.

Os reles 28 que permaneceram, porém, estão sendo dizimados pela contaminação por elementos químicos, como pesticidas, bifenilo policlorado (óleo usado em capacitores e transformadores de energia) e hidrocarboneto policíclico aromático (elemento do petróleo, combustíveis e carvão).

Por serem cada vez mais raros, foi difícil encontrá-los, mas nada pálio para o barqueiro experiente que trabalha na ESEC. Nadando em bando, não chegaram muito perto, mas foi possível enxergar bem seus dorsos sobre a água. Nunca tinha visto um golfinho pessoalmente. Cresci ouvindo relatos dos mais antigos que os viam na travessia entre Rio e Niterói de barca. Uma tia, filha de um guarda-vidas, chegou a nadar com eles em Niterói.

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Pouco depois de ter conhecido um pedacinho do meio ambiente que resiste à degradação gerada por nós, más notícias vieram do Planalto central. Ações do governo federal que poderiam colocar toda aquela realidade em risco. Em maio, o ICMBio publicou a portaria nº 426/2020, que prevê a transferência da administração da APA de Guapi-mirim e da ESEC para Teresópolis, a 36 km de distância, o que poderia dificultar ações de fiscalização e o relacionamento com a comunidade local.

Em junho, contudo, a Justiça Federal determinou a suspensão da medida. O despacho da 1ª Vara Federal de Magé ordenou que os chefes e demais servidores retornassem às suas respectivas unidades. Segundo a decisão da juíza Ana Carolina Vieira de Carvalho,  “a ausência física dos servidores nas UCs é capaz de gerar danos iminentes e de difícil reparação, como a poluição e desmatamento de importante parcela preservada dos biomas protegidos”.

Apenas em 2020, o governo federal decretou mudanças que ameaçam os dois biomas mais conservados da região: o manguezal e a mata atlântica, ambas vegetações que se regeneraram ao longo de décadas após terem sido destruídos pela exploração humana.

Outro golpe vindo do Ministério do Meio Ambiente veio no fim de setembro, quando o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) derrubou quatro resoluções que tratavam da proteção ambiental, sendo que duas delas restringiam o desmatamento e a ocupação em áreas de preservação ambiental de vegetação nativa, como os manguezais de Guapimirim.

A medida está sob  disputa judicial e já teve decisões favoráveis e contrárias ao Conama. No fim de outubro, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), sustou provisoriamente a decisão do Conselho. A liminar vale até que a questão seja julgada pelo plenário do Supremo. No Estado do Rio, porém, temos um escudo: a Constituição Estadual, que em seu artigo 268 protege os manguezais de maneira permanente.

Devemos zelar pelo Pantanal e pela Amazônia, mas não podemos descuidar do tesouro que é nosso vizinho. São mais de 40 anos de lutas pela preservação dessa região. Dela dependem a reprodução de diversas espécies e o sustento de pescadores. Trata-se de projeto de preservação bem sucedido com reconhecimento internacional. Precisamos ficar atentos aos próximos capítulos dessa história, que pode ou não terminar como uma tragédia. Que as instituições façam seu trabalho.

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