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Se a cidade fosse minha

Opinião do editor

Douglas Mota

Fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição nos anos 1970, no coração da cidade. Foto: reprodução
Fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição nos anos 1970, no coração da cidade. Foto: reprodução

As cidades precedem às nações, foram as bases da civilização. Enquanto os Estados se formavam, elas já eram senhoras carregadas de identidades próprias. Por isso, chega a ser contraditória a realidade que observo ao meu redor. Nasci e cresci num município médio, suburbano com ares quase rurais, nas franjas da metrópole fluminense. Queimados, cá entre nós, não teve muito tempo para desenvolver uma identidade – o então distrito de Nova Iguaçu só se emancipou em 1991, poucos anos antes de eu nascer. Ou seja, faço parte da primeira geração de queimadenses de fato. Não sei se isso justifica, porém, esse meu bairrismo crítico. Os mais antigos, que votaram em plebiscito pela independência, nem meus conterrâneos mais jovens parecem se importar com a nossa pequena política.  

A freguesia diminuta de outrora inchou desordenadamente até chegar aos atuais 150 mil habitantes. Esbanjamos um distrito com mais de 40 indústrias enquanto nos acostumamos com cadáveres abandonados em espaços públicos. Apegamo-nos aos ares de aparente tranquilidade que contrastam com os vizinhos-formigueiro da Baixada Fluminense e da capital, ao mesmo tempo em que reclamamos da falta de infraestrutura urbana mais básica para a vida que se espera ter no século XXI.

Certa vez, um professor na escola recomendou à turma que, ao fim dos estudos, buscasse seguir a vida em outro lugar mais desenvolvido e com oportunidades. Não que desaprove o fluxo global de pessoas, o que nos enriquece enquanto humanos, mas não gosto da lógica de abandono e desistência. Quando caminho pelas ruas de um bairro elitesco como Ipanema ou de um subúrbio mais “arrumadinho”, sinto um pouco de inveja (não sou de ferro), mas nutro uma esperança baseada na crença de que todos os problemas que me apoquentam cotidianamente em Queimados têm solução.

Uma das razões pelas quais escolhi o jornalismo como carreira e tento exercê-lo, a duras penas, com a BaixadaZine é a oportunidade que tenho de tratar as mazelas com um olhar solucionador, não sensacionalista, e tentar gerar discussões em torno dos assuntos que (pensando bem utopicamente) resultem em transformações reais que beneficiem as pessoas. Em época de eleições, a sanha de pensar em políticas públicas fica à flor da pele. Lendo os planos de governo dos candidatos à prefeitura, identifiquei muitas lacunas sobre questões que considero fundamentais e que me fermentaram algumas ideias. Vamos a elas, por área.

Cultura e patrimônio

A cidade tem um teatro muito bem equipado (Teatro Escola Marlice Margarida Ferreira da Cunha, mais conhecido como Metodista) e que, contudo, não tem nenhuma peça há tanto tempo que já nem me lembro qual foi o último espetáculo. Bem ao lado, também temos um ginásio esportivo que já recebeu um musical da Broadway. Não sobram palcos por aqui, falta política pública. Nos tempos áureos de desenvolvimento da cidade (também do Rio e do Brasil), chegamos a ter um festival anual que trazia companhias locais e de outros lugares. Tudo de graça. É aí que mora o problema.

Queimados possui um teatro muito bem equipado, mas pouco utilizado para suas atividades-fim. Foto: reprodução/Anatel
Queimados possui um teatro muito bem equipado, mas pouco utilizado para suas atividades-fim. Foto: reprodução/Anatel

Há uma lei municipal que proíbe a cobrança de ingressos para espetáculos em instalações da prefeitura, basicamente as únicas que existem. Os legisladores decerto eram bem intencionados e só queriam democratizar o acesso à cultura, mas a consequência é que os profissionais da área ficam sem meio de sustento, já que o município não tem condições de custear apresentações ou temporadas. Como consequência, os espaços passam meses vazios, só consumindo verba de manutenção. Sem o fim ou pelo menos a flexibilização dessa lei somado a um incentivo à ocupação dos espaços, qualquer política cultural está fadada ao fracasso.

Programação também falta à biblioteca da secretaria de educação, única pública da cidade. Já que não temos livrarias, esta e as das escolas, que têm acesso restrito, são as únicas fontes de contato com a literatura por aqui. Penso que o modelo das Bibliotecas Parque, do Rio e de Niterói, seria muito bem vindo. A unidade do meu colégio transformou a minha vida e fui obrigado a me afastar quando me formei no Ensino Médio. Um programa pra tornar a literatura atrativa e popular de forma constante seria revolucionário.

Ruínas de leprosário construído no século XVIII: desconhecimento, abandono e vandalismo. Foto: reprodução/YouTube
Ruínas de leprosário construído no século XVIII: desconhecimento, abandono e vandalismo. Foto: reprodução/YouTube

Na história recente de urbanização intensa, o tido progresso atropelou o passado. A história registrada da cidade começa no Brasil Colônia, tem um auge no Império com a construção da Estrada de Ferro D. Pedro II e uma riqueza no século XX com novas dinâmicas econômicas, os laranjais, fazendas. Dessas épocas, quase nada restou, exceto as ruínas do antigo leprosário. Pelo que me lembro de ter aprendido na escola, ele foi construído no século XVIII e pode ter dado origem ao nome da cidade – os cadáveres dos pacientes eram queimados pra evitar contágio. Hoje só restam algumas paredes, caindo aos pedaços e pichadas, no meio do mato, mas ao lado da linha férrea. É papel da prefeitura tomar posse daquela área, buscar recursos pra revitalizar as ruínas e requalificar o terreno, criando um bom espaço público numa área bem carente e periférica.

Meio ambiente, urbanismo, transporte e afins

Em 2018 me alonguei bastante por aqui sobre as queimadas urbanas e os graves males que nos causam. Desde então, tenho observado que a Guarda Ambiental Municipal tem se empenhado em combater as chamas de locais abertos e enchido as redes sociais com imagens de animaizinhos resgatados feridos. Dependendo da força das chamas, é necessário recorrer aos Bombeiros pela falta de estrutura. Se não dão conta das queimadas na natureza, é bem claro que os focos menores no perímetro urbano, muitas vezes em terrenos privados, ficam de fora da alçada dos guardas.

Não deveria ser assim. Como disse há dois anos, lei já existe para evitar essa fonte de poluição atmosférica. Falta fiscalização, uma política de prevenção, mas, sobretudo, conscientização. Aposto todo o meu naco de esperança na humanidade se, ao tomar ciência das doenças causadas pelo ar mortífero, a maior parte das pessoas não parariam na hora de tacar fogo em tudo. (Talvez não devesse fazer isso, dado o tropeço civilizatório evidenciado pelo comportamento das pessoas na pandemia). Saúde, meio ambiente e urbanismo passam por acabar com essa maldição.

Um passo posterior poderia ser o reflorestamento de morros “carecas”. Um exemplo que citei naquele post foi o do Morro da Torre. Segundo meu avô, ele era coberto de mata há cerca de 40 anos. A vegetação virou lenha, em tempos de maior precariedade, e o mato rasteiro e seco tornou-se combustível fácil. Niterói provou que é possível reflorestar essas áreas degradadas. Quem não quer um clima mais fresco, um ar mais puro e evitar a favelização com moradias sob alto risco de deslizamento?

Vista do satélite do Morro da Torre, em destaque, e o trecho entre a Via Dutra e o centro de Queimados. Foto: reprodução/Google Maps
Vista do satélite do Morro da Torre, em destaque, e o trecho entre a Via Dutra e o centro de Queimados. Foto: reprodução/Google Maps

Saneamento básico é questão de meio ambiente e, assim como as queimadas, também de saúde. Num seminário recente feito pel’O Globo sobre a Baía de Guanabara, um dos participantes frisou bastante a qualidade (ou a falta dela) das redes de coleta de esgoto e até a sua ausência. Nosso esgoto não vai para a Guanabara, mas para a de Sepetiba, porém o problema é o mesmo. Muitas casas não têm fossa, enquanto em diversos bairros o esgoto cai na rede pluvial, que não recebe nem nunca vai receber tratamento. Um problema que não é só dos bairros “improvisados”. Na Vila Pacaembu, que não existia até a minha infância e abriga parte da classe média da cidade, é possível ouvir barulho de água nos bueiros em dias secos. Ou seja, os empreiteiros não construíram redes adequadas e cometeram um crime.

Esse mesmo bairro, ainda que ostente ruas retilíneas e casas simpáticas e padronizadas, não passa de um grande amontoado de concreto e asfalto. Algumas poucas árvores, pequenas e puramente ornamentais, ficam dentro dos quintais, e essa é uma característica de todo o município. Do alto, vê-se muito verde, mas na rua não há sombra. Andar da minha casa até o Centro, uma pequena caminhada de 15 minutos, é um martírio. Como a ocupação é horizontal e faltam árvores, é uma viagem praticamente inteira debaixo de sol. Não é uma cidade convidativa ao passeio e a locomoções mais limpas – até porque os pontos de ônibus também não têm cobertura.

Aproveitando o gancho dos transportes, temos ônibus e uma estação de trem, algumas ciclovias sem continuidade que vão do nada a lugar nenhum e nada disso converge. Nossa estação é uma das mais antigas do Brasil, construída em 1858, e dela depende um enorme contingente de pessoas. Cidade dormitório com 150 mil habitantes (bom lembrar) e com apenas uma estação, e ainda assim tem uma das piores paradas da Supervia. A efeito de comparação, Mesquita tem 176 mil habitantes e três estações bem equipadas, enquanto Nilópolis possui duas estações ótimas para 162 mil pessoas.

Poucos e maus bancos, com poucos assentos, cobertura pífia que produz pouca sombra (vejo um padrão nas minhas queixas) nem protege direito da chuva, sem acessibilidade e bicicletário. A passarela de acesso ainda é estreita e sem cobertura. Você já pega o trem suando em bicas. Sei que a gestão pertence à concessionária de trens, mas a prefeitura não pode se omitir. Tem que buscar algum tipo de parceria pra fazer essas pequenas melhorias que são muito significativas na vida da população.

Estação de Queimados: inaugurada em 1858, ainda carece de estrutura para conforto dos passageiros. Foto: reprodução/Mapio
Estação de Queimados: inaugurada em 1858, ainda carece de estrutura para conforto dos passageiros. Foto: reprodução/Mapio

Saindo da estação, os ônibus ficam dispersos nas ruas, com pontos finais mal estruturados, mas curiosamente próximos a terrenos ociosos há décadas. Deveria haver, portanto, dois terminais rodoviários, não tão grandes, um de cada lado da linha férrea, reunindo pelo menos as linhas municipais. Além de sombra e proteção e a desobstrução das ruas do Centro, com comércio na parte superior das estruturas é possível gerar mais atividades econômicas.

Pontos finais de linhas de ônibus se concentram em torno de terrenos vazios que poderiam abrigar terminais rodoviários. Foto: reprodução/Google Street View
Pontos finais de linhas de ônibus se concentram em torno de terrenos vazios que poderiam abrigar terminais rodoviários. Foto: reprodução/Google Street View

Outra questão quase nunca abordada é o desenho dos trajetos desses ônibus. Um problema relativamente comum: é bem difícil transitar pela cidade a não ser que você vá para o Centro, pegar o trem pra ir trabalhar. Mais uma vez, não é uma cidade convidativa ao passeio, a se estar, a visitar pessoas e conviver. Precisamos de mais linhas circulares, que atravessem as três “fatias” de Queimados, cortada duas vezes pela Via Dutra e a linha férrea. Ouso dizer que poderiam firmar parceria com a UFRJ pra testar o ônibus híbrido a hidrogênio desenvolvido aqui ao lado.

Falando em convívio, lembro dos espaços públicos pouco ocupados. A praça Nossa Senhora da Conceição, no coração da cidade, não tem os típicos bancos de praça. Já a dos Eucaliptos não tem eucaliptos nem outras árvores frondosas, só palmeiras mal cuidadas e bancos caindo aos pedaços que basicamente só servem a quem espera os ônibus. Áreas verdes temos poucas, sendo a principal bem recente, o Horto Municipal. Queimados não herdou nenhuma área florestal, como as vizinhas Japeri, Paracambi, Seropédica e, claro, Nova Iguaçu. Por isso ter pequenos pulmões bem distribuídos pela área urbana é ainda mais fundamental. Espaço pra isso nós temos.

Praça Nossa Senhora da Conceição possui poucos bancos e nenhum banco comprido, típico desses espaços públicos

Além de não ter nenhum exemplar da praça que a batiza, a Praça dos Eucaliptos só tem palmeiras que não produzem sombras – e também faltam assentos

Cidades sem vida têm ruas vazias. Aos poucos perde-se a cultura de ocupação desses espaços, muitas vezes por medo. As prefeituras não têm poder de polícia, e as guardas municipais são limitadas. Porém, o futuro prefeito poderia melhorar a iluminação. Trabalho há dois anos com empresas de energia elétrica e sei que é possível fazê-lo sem grandes custos.

Por lei, as distribuidoras de energia abrem chamadas públicas de projetos de eficiência energética anualmente. Os entes municipais podem submeter projetos de melhoria da iluminação pública para substituir lâmpadas antigas por de LED, o que é bastante comum no Brasil. Num mundo ideal, ainda seria feita uma adequação dos postes. Explico: em Ipanema e no Centro do Rio, por exemplo, eles são mais baixos e mais próximos um do outro. Não são atrapalhados pelas árvores e mantém as ruas bastante claras. Por que não fazer o mesmo por aqui?

Não sou candidato a nada nem almejo esse caminho pra minha vida. No entanto, acredito que cidadania não consiste em só comparecer a uma urna e apertar uns botões com intervalo de anos. Na periferia metropolitana em que estou inserido sobra indignação, mas faltam consciência e discussão sobre os problemas. Este ano, houve um recorde de candidaturas em Queimados, com os mais diversos planos de governo, mas que falham em apontar soluções para questões básicas e até simples. Espero que algum bem intencionado com poder leia isso aqui. Na vida, só a morte não tem solução.


Índice – Edição V

1. Aos leitores

2. Poesia: “Fotografia da exclusão”, de Ivone Landim

3. Reportagem: Mais de 2 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto na Baixada

4. Reportagem: Paraíso verde no Recôncavo da Guanabara – uma viagem a Guapimirim

5. Poesia: “O beijo e o bicho”, de Marcio Ruffino

6. Reportagem: Pandemia agrava situação do teatro na região

7. Galeria: Marcos Maciel – fotografia

8. Artigo: Se a cidade fosse minha

9. Trecho retirado do livro “Parnaso Brasileiro” (1843), de João Manuel Pereira da Silva

10. Expediente

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