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Prisioneira 54

Jacob El-mokdisi

Liv encolheu-se atrás de uma mesa de escritório tão derruída quanto suas roupas. A escuridão a assustava, mas nada poderia ser tão aterrador quanto o zumbido emitido pelos alto-falantes do helicóptero. A menina, do alto de seus treze anos incompletos, desconhecia a origem científica, mas já era capaz de reconhecer os efeitos dos sinais sonoros que estimulavam seu cérebro a produzir cortisol e adrenalina, os hormônios do medo. A reação de luta ou fuga que seu corpo reproduzia, sem um oponente visível a ser combatido, levava ao único caminho por onde o som não entrava. Ainda que em seu íntimo, soubesse que era exatamente ali, ao fim do corredor, que os temidos agentes da lei a aguardavam com suas pistolas elétricas. Instintivamente, correu para longe do barulho aterrador. Ao passar pela porta, foi atingida por uma descarga capaz de derrubar um elefante. Teve vontade de chorar, mas a única coisa que seu corpo mirrado produzia era um estertor involuntário causado pela descarga elétrica. Sequer entendeu quando o oficial de justiça leu seus direitos:

– Liv Fiaskinta: você está sendo presa pelo crime de evasão escolar. Tudo o que disser pode e será usado contra você no tribunal.

Finalmente uma lágrima rolou de um de seus olhos, enquanto pensava na mãe sendo presa por cumplicidade. O pai já estava preso havia quase dez anos, por ter espirrado em público.

Os homens algemaram suas mãos às costas e prenderam uma tornozeleira eletrônica em sua perna direita. Ergueram-na como se não tivesse peso e a jogaram dentro do camburão, junto de outros quinze presos, cujas idades não eram muito diferentes da sua.

Nunca passara por aquela situação, mas já ouvira tantos relatos que sabia exatamente o que iria ocorrer: seria condenada a um mínimo de dez anos de trabalhos forçados em alguma fábrica. Antes de completar a pena, esta seria aumentada por algum motivo burocrático, ou insubordinação, ou tentativa de fuga. Quando estivesse velha e fraca, seria posta em liberdade, sem emprego, sem ofício, sem instrução. Provavelmente acabaria roubando um pão e seria condenada à morte por asfixia. Caso algum parente seu se condoesse, poderia pagar um remédio para ser executada dormindo. Tudo sob a chancela da Lei.

Liv não sabia, mas todo aquele pesadelo que vivia começara cerca de sessenta anos antes, por volta da segunda década do século XXI.

Grandes economias, como as dos Estados Unidos, Inglaterra, Itália, França e Japão, viram-se em dificuldades econômicas após a ascensão da China, com sua mão de obra barata, muitas das vezes, escrava. Economias emergentes, como Brasil, Rússia e Índia cresciam vertiginosamente, levando as indústrias de grande porte de outros países à falência, devido à impossibilidade de se reduzirem os custos de produção. Como forma de recuperação econômica, algumas empresas investiram na criação de prisões particulares, que atendiam à necessidade estatal de mais vagas nos presídios. Algumas dessas unidades correcionais cediam seus prisioneiros para trabalhos forçados como forma de reduzir a pena. Era a oficialização do trabalho escravo.

A despeito da desumanidade do sistema, esta manobra salvou da falência muitas empresas e até mesmo governos. Com o passar do tempo, a construção de presídios ocorria no interior de centros industriais, de forma que as indústrias pudessem usufruir com mais facilidade da mão de obra presidiária. A China foi o primeiro país a mudar a legislação criminal objetivando aumentar a capacidade produtiva, no que foi logo seguida por paises considerados mais democráticos, como o México. Aos poucos, todos os países do mundo foram tornando-se cada vez mais intransigentes com o que se considerava ordem pública. Jogar lixo no chão, que a princípio resultava em multa, passou a dar cadeia. De início, alguns meses. Até que os diretores das fábricas começaram a exigir maior tempo dos presos. Para aprender um serviço técnico, em alguns casos, o trabalhador podia chegar a levar dois anos. Justamente quando consideravam-no apto ao trabalho, devia ser posto em liberdade. Consequentemente, as penas foram ficando cada vez mais extensas e os crimes cada vez mais banais: beijo em público, sons corporais (espirros, flatos, palmas e outros) ou uso de trajes inadequados, eram punidos com um mínimo de três anos de prisão e trabalhos forçados. Os congressistas de todo o mundo eram justamente os sócios dos grandes conglomerados prisionais, o que resultava em leis cada vez mais severas.

As empresas não tinham mais donos e sim sócios. No caso de algum daqueles crimes ser cometido por uma empresa, havia um responsável a ser punido. Normalmente, um já condenado, cuja pena era aumentada. Os sócios proprietários daquelas empresas estavam literalmente acima da Lei.

As eleições eram livres, mas, ao ser condenado, o cidadão perdia seus direitos políticos. Os parentes de algum criminoso que não o denunciassem, eram presos por cumplicidade. Assim, quando o pai de Liv espirrou em público, foi sua esposa quem o denunciou.

Para cada ação que pudesse ser considerada crime, havia um produto no mercado que evitava a prisão do cidadão: máscaras abafadoras de ruídos, roupas íntimas com isolamento acústico, pastilhas para evitar a flatulência, lixeiras públicas que se abriam com uma moeda, balas para cortar o efeito do álcool – pois consumir álcool fora de casa ou da escola era um crime gravíssimo, punido com um mínimo de seis anos de trabalhos forçados. Escolas públicas distribuíam, junto ao lanche, doses de bebidas alcoólicas às crianças, de modo a formar futuros consumidores. Era preciso punir os criminosos e não os fabricantes. Desde que a lei contra o consumo público de bebidas alcoólicas fora promulgada, os fabricantes receberam autorização para distribuir nas escolas, onde o consumo foi liberado, desde que a criança não saísse embriagada para a rua. Indústrias farmacêuticas apressaram-se a produzir comprimidos que cortavam o efeito do álcool, para que as crianças não fossem presas na volta para casa.

Como muitos queriam, a maioridade penal foi extinta. Havia trabalhos forçados para todas as idades. Exceto para idosos.

Idosos rapidamente tornaram-se um problema para as autoridades. Como colocar um criminoso velho e doente para trabalhar? Mais fácil era a execução. Pena de morte aos velhos criminosos. Outra aspiração da antiga sociedade obtusa. Promulgada a lei, todo cidadão que fosse incapaz de executar os trabalhos forçados para os quais fora condenado, poderia ter sua pena convertida em execução por asfixia. O criminoso era trancado em uma sala hermeticamente fechada, até que consumisse todo o oxigênio e morresse sufocado. Grupos de Direitos Humanos ficaram satisfeitos quando foi permitido que a família do condenado lhe comprasse um comprimido para dormir durante a execução.

Liv foi conduzida até a sala de julgamento, um cubículo com uma parede espelhada à sua frente e a porta por onde entrara atrás. Sabia que seu julgamento estava sendo transmitido via Internet para o mundo, até mesmo para seus julgadores que não se encontravam sequer na cidade.

– Liv Fiaskinta é seu nome?

Não queria demonstrar medo, mas a voz saiu tremida e baixa:

– Sim…

– Você está sendo acusada de evasão escolar, formação de quadrilha ou bando, resistência à prisão e trajar-se inadequadamente neste tribunal. Pode pagar um advogado?

– Não, senhor… – não conseguia conter o tremor da voz.

– Conste-se em ata que a ré abdicou do direito a um advogado…

– Eu não abdiquei! – finalmente a voz saiu firme.

Uma campainha disparou. Quando cessou o barulho, o juiz do outro lado da tela prosseguiu com sua voz inflexível:

– Pela insubordinação de falar sem ser inquirida, sua pena será aumentada em trinta por cento. Como não possui advogado, será defendida pelo programa Advogado Cidadão, da empresa Bigsoft, pelo qual pagará com cem dias de trabalhos forçados, acrescentados ao fim da pena. Terá quinze minutos com o programa. Ao fim deste prazo, o julgamento será iniciado.

O espelho acendeu-se como uma tela de monitor e surgiu a imagem de um Abraham Lincoln sorridente:

– Oi! Serei seu advogado nesta causa. Está sendo acusada de vários crimes. Como se posiciona perante a primeira acusação, de Evasão Escolar?

– Minha professora foi presa ontem e houve tumulto na escola. A polícia chegou batendo e prendendo todo mundo e eu fugi. Não sabia que isso era crime.

– Repita, por favor, que não entendi. Como se posiciona diante da acusação de Evasão Escolar: culpada ou inocente?

– Inocente.

– Como se posiciona diante da acusação de formação de bando ou quadrilha?

– Nem sei de onde tiraram isso.

– Repita, por favor, que não entendi. Como se posiciona diante da acusação de Formação de Bando ou Quadrilha: Culpada ou inocente?

– Inocente.

– Com se posiciona diante da terceira acusação, de resistência à prisão?

– Inocente!

– Como se posiciona diante da quarta acusação, de vestir-se inadequadamente para um tribunal?

– E como é que eu tinha que vir vestida?! Fui presa, sabia? Me deram choque, urinei na minha roupa quando levei aquele choque.

– Repita, por favor, que não entendi. Como se posiciona diante da acusação de vestir-se inadequadamente para este tribunal: culpada ou inocente?

– Ah! Vá se foder!

Uma campainha disparou e outra voz fez-se ouvir:

– Uso de linguajar inadequado!

Abraham Lincoln sorriu na tela:

– Evite sair do roteiro ou as coisas ficarão complicadas para você.

Uma lágrima de ódio rolou por seu rosto.

– Repita, por favor, que não entendi. Como se posiciona diante da acusação de vestir-se inadequadamente para este tribunal: culpada ou inocente?

– Inocente.

– Como se posiciona diante da acusação de insolência e insubordinação, por falar sem ser inquirida?

– Inocente.

– Como se posiciona diante da acusação de uso de linguajar inadequado na Internet?

– Eu não acesso a Internet, não possuo computador.

– Repita, por favor, que não entendi. Como se posiciona diante da acusação de uso de linguajar inadequado na Internet: culpada ou inocente?

– Inocente.

Abe Lincoln sorriu mostrando os dentes brilhantes:

– Com o uso freqüente de Hotgate, você terá um sorriso brilhante como o meu. Hotgate, Ahhhh!

Liv franziu o cenho:

– O que foi isso?

– Uma palavra de nossos patrocinadores.

– Eu não quero patrocinadores! – vociferou.

Lincoln sorriu mais uma vez:

– Não foi dirigido a você, mas aos nossos espectadores.

– Tem gente me assistindo? Não quero que me assistam!

– Este é um julgamento público. Como prisioneira, seus direitos sociais e políticos estão suspensos, você não tem direito a uma opinião sobre sua imagem.

– Eu não quero…

– Seus quinze minutos irão acabar logo. Acho melhor voltarmos à sua defesa.

– Está bem…

– Seu caso é grave, mas a justiça é justa! Justa como as roupas que você pode comprar na rede de Lojas Walvênus. Calças em microfibra computadorizada que modelam seu corpo. Basta escolher um modelo de bumbum que a calça deixa o seu corpo em forma!

Enquanto Abe Lincoln falava, a tela mostrava uma calça se ajustando a diversas formas. Quando o comercial terminou, o advogado virtual retornou:

– Primeiro, vamos melhorar sua aparência, com o patrocínio das Lojas Walvênus. Tire sua roupa.

Liv ficou só de calcinha, cobrindo com as mãos os pequenos seios que começavam a despontar.

– Toda a roupa… – exigiu Lincoln.

Jatos de um líquido jorraram sobre Liv de toda parte. Em seguida, um vento seco e frio evaporou o líquido de seu corpo e a atmosfera tornou-se enevoada. Uma portinhola deslizou suavemente para dentro da parede, expondo um buraco pouca coisa maior que a cabeça da menina.

– Coloque sua cabeça no buraco, por gentileza. – Pediu a imagem de Lincoln.

Ao colocar a cabeça, algo prendeu seu pescoço. Uma ventania prendeu seus cabelos, enquanto sentia que jatos de algum vapor eram espirrados em seu rosto. Em segundos, a pressão em seu pescoço aliviou e retirou a cabeça do buraco. Na tela onde antes vira Abraham Lincoln, agora podia ver seu rosto em close. Seus cabelos estavam pintados de louro, escovados e seu rosto maquiado. Decalques semelhantes a brincos haviam sido fixados em suas orelhas. Estava linda!

Abraham Lincoln ressurgiu na tela:

– Vista aquelas roupas ali.

De uma das paredes, ejetavam-se para frente duas gavetas grandes, com divisórias, em cujo interior Liv avistou uma calcinha minúscula, uma meia calça, uma cinta-liga e sapatos de salto alto. Vestiu-se. As roupas ajustaram-se ao seu corpo. Um gráfico surgiu na tela, ao lado de Lincoln, que sorriu.

– Você está muito popular. Isso é bom! Certamente é por causa das lingeries De Sillum! De Sillum, para a mulher que quer ser notada!

Duas lágrimas rolaram de seu rosto.

– Chore, querida – a voz de Abe era paternal – chore sem preocupação, pois as maquiagens Ovan não saem com água, apenas com o removedor de maquiagens Ovan. Venha ser uma consultora Ovan! Agora coloque aquele vestido ali. Um autêntico Prosolatto!

Outra gaveta ejetou-se da parede. Um vestido curto vermelho ocupava todo o espaço interno. Liv colocou o vestido que, como as outras peças, ajustou-se ao seu corpo, apertando com força sua cintura e o alto da parte de trás das coxas, avolumando as nádegas infantis que possuía.

Na tela, a imagem de seu corpo ficou girando, mostrando detalhes como a marca da calcinha minúscula, os mirrados seios que se avolumaram, a cintura fina. A tela dividiu-se em dois, com o outro lado mostrando sua imagem só de calcinha, cobrindo os seios com as mãos.

– Esta transformação foi elaborada com o auxílio do programa Embeleze-se. O melhor programa de escolha de visual que existe! Compre e baixe imediatamente! Você vai perceber a maravilha que é ter o seu próprio consultor de moda em casa!

Uma sirene apitou e a tela piscou, reaparecendo a imagem de Abraham Lincoln em meia tela; na outra metade, apenas a silhueta de um juiz e um júri a seu lado.

– O prazo de quinze minutos já passou. Como a ré se declara diante das acusações?

Abe sorriu:

– Inocente de todas as acusações, Meritíssimo.

– Provas da primeira acusação: Evasão Escolar!

A tela começou a mostrar imagens de Liv esgueirando-se pelas paredes, brincando de amarelinha, correndo na chuva, subindo em uma árvore no parque. Imagens verdadeiras, mas obviamente fora de contexto. Havia subido na árvore quando a professora levou a turma para um passeio no parque, no ano anterior; a brincadeira de amarelinha também havia sido na própria escola.

– Como a acusada se declara, advogado?

Abraham Lincoln fez uma cara de decepcionado, como se estivesse mentindo descaradamente:

– Inocente, Meritíssimo…

– Está aberta a votação para que nossos jurados internautas decidam se a acusada é culpada ou inocente.

Após uma pausa de apenas alguns segundos, o programa mostrou um quadro gráfico.

– Com 97,86% dos votos válidos, este júri considera a ré culpada do crime de Evasão Escolar.

A tela passou a exibir Liv brincando com outras crianças. A câmera dava um close em cada rosto e estampava a condenação que cada um deles estava cumprindo. Todos com formação de quadrilha. Eram seus colegas de escola, muitos dos quais presos no mesmo dia em que a polícia invadiu e prendeu todo mundo.

– Com relação à acusação de formação de quadrilha ou bando, como a ré se declara, advogado?

– Inocente… – a cara de Lincoln por si só valia a condenação.

– Abertas as votações e… 98,42% de votos válidos pela condenação.

– Com relação à acusação de resistência à prisão, como a ré se declara?

Abe Lincoln sorriu, dando de ombros:

– Inocente, Excelência…

– Abertas as votações e… 95,72% dos votos válidos. Culpada!

Liv encolheu os ombros.

– Com relação à acusação de trajar-se inadequadamente para um tribunal, como a ré se declara?

– Inocente, Meritíssimo, mas gostaria de observar que agora ela está vestindo trajes adequados, com o patrocínio das Lojas Walvênus.

A tela passou a exibir imagens de Liv apenas com as roupas de baixo e, em seguida, com o vestido. A um lado da tela, um gráfico mostrava o crescimento do número de espectadores.

– Este tribunal entende que, dado o interesse da Ré em melhorar sua aparência, a ação benevolente dos patrocinadores não pode deixar de ser levada em conta. Assim, retiramos a acusação de vestir-se inadequadamente para este tribunal.

Lincoln fechou os punhos e socou o ar, em uma gesto de comemoração vitoriosa.

– Com relação à acusação de insolência e insubordinação?

Abe ficou olhando as unhas:

– Inocente, Meritíssimo.

O rosto de Liv na tela era ameaçador ao gritar:

– Eu não abdiquei!

– Votação aberta e… 99,27% dos votos válidos pela condenação!

Abe sorriu:

– Puxa! É quase um recorde!

– Com relação ao uso de linguajar impróprio e ofensivo a uma autoridade, como a Ré se declara?

– Inocente, Meritíssimo… – Abe sorriu – embora este advogado entenda que uma pequena punição seja merecida.

– Por motivos de decoro, pela moral, família e pelos bons costumes, a ofensa não será ouvida.

A tela ficou exibindo repetidamente a cena de Liv:

– Ah, vá se…

– Abertas as votações e… 99,99% dos votos válidos!

– É um recorde! Uhu! – Abe comemorou.

– Peço ao ilustre programa advogado que aguarde a relação entre os votos válidos e os votantes, antes de comemorar.

– Sim, Excelência…

– Por 48537 votos, o Caso Estado Versus Mary Maya ainda é o recordista.

Abe pareceu ficar furioso.

– Com todo respeito por este tribunal, Excelência, humildemente peço a revisão da contagem dos votos válidos. De acordo com meus dados, vários assinantes inadimplentes foram contados como votos válidos. Ora, Vossa Excelência há de convir, baseado no artigo 117 do Código de Comportamento Civil, que um assinante inadimplente não deve usufruir dos direitos de um cidadão de bem. Data venia, retirados os votos inválidos, esta votação é recorde e a empresa Bigsoft deve receber o bônus-prêmio por ele. Assim, peço que sejam levadas ao Grande Júri Popular as moções que ora apresentamos. Primeiro, que seja posto em votação pelo Grande Júri se os votos inadimplentes devem ser considerados válidos ou não.

– Este tribunal entende que o Ilustre programa Advogado Cidadão está com a razão. Assim sendo, colocaremos em votação se os votos inadimplentes são ou não válidos.

– Peço a palavra, Excelência!

– A palavra é dada ao Programa Promotor.

– Há a necessidade de se perguntar: nesta votação, serão considerados os votos inadimplentes neste momento?

– O Programa Promotor tem razão! Sendo assim, declaro esta decisão “sub judice”, para que no prazo legal de dois anos as partes interessadas interponham seus juízos. Até lá, nenhum outro recorde pode ser reivindicado.

Abe socou novamente o ar:

– Isso!

A tela apagou-se.

– O que houve? – Indagou Liv.

– A empresa concorrente não poderá, por dois anos, se declarar proprietária do recorde de votação em um julgamento! É uma grande vitória!

– Significa que serei posta em liberdade?

– Hein?! Não, querida! Esta parte não teve nada a ver com você. O juiz está estipulando sua pena agora. Em um minuto sua sentença será lida. Foi uma honra defendê-la.

A tela apagou-se e Abe Lincoln desapareceu. Liv ficou olhando a tela apagada por alguns instantes, até que acendeu-se novamente.

– Condenada Liv Fiaskinta, sua sentença foi proferida. Pelo crime de evasão escolar, você foi condenada a doze anos de trabalhos forçados; pelo crime de formação de quadrilha ou bando, você foi condenada a quinze anos de trabalhos forçados; pelo crime de resistência à prisão, você foi condenada a dezoito anos de trabalhos forçados; pelo crime de apresentar-se inadequadamente a um tribunal, você foi perdoada; pelo crime de linguajar inadequado, você foi condenada a dezesseis anos de trabalhos forçados, culminando em um total de sessenta e um anos de trabalhos forçados, que serão acrescentados de trinta por cento devido ao crime de insolência e insubordinação a um tribunal, correspondentes a dezoito anos e quatro meses, que somados aos sessenta e um anos, resultam em um total de setenta e nove anos e quatro meses de trabalhos forçados, além dos cem dias de trabalhos para pagamento de sua defesa.

O programa fez uma pequena pausa e prosseguiu:

– A partir de agora será tratada como Prisioneira 54.

Liv não deixou de perceber a coincidência. “Foi mesmo coincidência?”

– Com todo o respeito, Excelência, gostaria de fazer uma pergunta.

– Condenados não podem dirigir-se ao tribunal, exceto através de seu advogado. Entretanto, abriremos uma exceção.

– Qual seria a pena para vestir-me inadequadamente?

A tela apagou-se por um instante e, ao reacender, viu o rosto de um homem de cerca de sessenta anos. Vestia uma camisa florida e, ao fundo divisou uma piscina. Mocinhas aparentemente com a mesma idade que Liv, conversavam e brincavam em seu entorno.

– Normalmente aplico apenas uma advertência verbal. Sabe o que lhe aguarda agora? – indagou o Juiz.

– Oitenta anos de trabalhos forçados em alguma fábrica.

– Se vier trabalhar para mim, sua pena será reduzida à metade, o que acha?

– Não sei… – a voz ainda era tremida, mas agora era perceptível o medo nas palavras que articulava.

Liv fazia ideia do tipo de trabalho ao qual o homem se referia. Na escola, corriam boatos sobre meninas que eram forçadas a se prostituir para pagar a pena.

– Olhe, Liv, a escolha é simples: quarenta anos aqui, se divertindo, comendo bem, dormindo em uma cama de verdade, ou oitenta anos em um presídio, comendo mingau e dormindo no chão.

– Vinte! – Não soube de onde tirou a coragem para regatear, mas algum tempo depois, convenceu-se de que poderia ter regateado ainda mais.

O juiz gargalhou.

– Gosto de sua audácia. Você é virgem?

– Sou.

– Então temos um acordo. Vinte anos.

Liv poderia ter regateado mais, mas não conseguiria reduzir sua pena até o momento em que desistiu. Assim como outras meninas com quem convivera. Um dia antes de completar quinze anos, decidiu pôr fim à própria vida. Seu corpo foi embalsamado com técnicas modernas e ainda passou cerca de trinta anos servindo aos clientes do juiz, até o dia que um deles a retalhou de forma definitiva e o magistrado enviou para a cremação.

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