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Tesouro natural relegado

Mesmo sendo o manancial do Rio de Janeiro, rios da Baixada sofrem com falta de saneamento e poluição

Itala Barros

No decorrer da história da humanidade, os cursos d’água sempre foram um fator primordial no estabelecimento das civilizações. Na Baixada Fluminense, os rios não só foram importantes para a ocupação de populações locais, como tiveram um papel estratégico no escoamento de riquezas brasileiras durante os séculos XVII e XVIII.

A Baixada tem uma extensa bacia hidrográfica, com mais de 3 mil km², formada por rios como o Meriti-Pavuna, com 450 km; o Iguassú, com 650 km²; o Estrela-Inhomirim, com 450 km²; o Suruí, com 150 km²; o Magé, com 150 km²; o Macacu, com 1.750 km²; e o Guaxindiba, com 20 km². Seus cursos fluem para as duas principais baías do Rio de Janeiro: a de Guanabara, a leste, e a de Sepetiba, a oeste. Durante quase todo o período do Brasil Colônia e por vários anos do Império, os rios da região ostentavam importância logística no caminho de bens como ouro, café e cana-de-açúcar para os portos do Rio.

Rio Guandu. Foto: @eu.dougz/Flores da Baixada
Rio Guandu. Foto: @eu.dougz/Flores da Baixada

Até hoje as águas provenientes da Baixada têm um papel fundamental para a vida dos fluminenses. O Rio Guandu – que nasce entre Japeri e Paracambi – é o responsável por abastecer cerca de 80% da população da Região Metropolitana. Inaugurada em 1955, a  Estação de Tratamento de Água do Guandu é a maior do mundo em produção contínua, com 43 mil litros produzidos por segundo. Essa capacidade deve ser ampliada em 30% com a construção da segunda estação. Segundo a Cedae, o projeto Novo Guandu prevê novas instalações e o desvio de três rios poluídos que desaguam no Guandu (Queimados, Poços e Ipiranga) num ponto anterior à captação para que não seja mais necessário tirar essas impurezas durante o processo de tratamento.

Apesar de ter águas que impactam profundamente o cotidiano de milhões de cidadãos, os rios da Baixada estão esquecidos e combalidos. Assoreamento, poluição, aterros irregulares e despejo de material tóxico são alguns dos problemas que assolam praticamente todos os rios da região. Grande parte da fauna e flora que habitam essas águas e os seus entornos foram destruídas. O cágado-do-paraíba, por exemplo, que era um dos principais animais aquáticos do Rio, atualmente só pode ser encontrado em poucas áreas de proteção ambiental, na Reserva Biológica de Tinguá.

O meio ambiente também é a vítima quando o assunto é esgoto. Cerca de 40% das residências não são conectadas às redes de coleta, e as doenças causadas pela falta de saneamento básico ainda revelam números alarmantes em cidades como Queimados e Japeri, onde figuram entre as 3 causas de morte mais comuns. Esse quadro se torna mais alarmante quando leva-se em consideração as enchentes. Segundo Paulo Canedo, engenheiro especializado em hidrologia, a Baixada é uma região  de cheias, especialmente no fim do verão.“A Baixada enche, transborda e causa transtornos e prejuízos enormes para a população”, diz.

As perdas materiais citadas por Paulo são sentidas, ano após ano, pelos cidadãos que perdem casas e pertences na enchentes. Um grupo de moradores de  São João de Meriti resolveu se juntar para tentar evitar que quadros assim se repitam e criaram o Movimento Pró-Saneamento. Em reuniões mensais, eles discutem iniciativas que podem trazer resultados na questão de água e esgoto precários da Baixada.

Foto: Flores da Baixada
Foto: Flores da Baixada

Um dos fatos sempre lembrados sobre o saneamento na Baixada é o projeto Iguaçu, criado em 2007 e  incluído no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal). A proposta era ambiciosa: controlar as inundações e recuperar as bacias dos rios Iguaçu, Botas (que nascem em Nova Iguaçu) e Sarapuí (que passa por seis municípios e deságua em Caxias).  As obras incluíam dragagens, construção de pontes e reassentamento de ribeirinhos.

A primeira etapa do programa foi cumprida, e cerca de 58 km foram dragados. Porém, desde 2015, os repasses de verbas foram congelados por ordem do Tribunal de Contas da União (TCU) devido a suspeitas de irregularidades na destinação do dinheiro por parte das prefeituras e do Instituto Estadual do Ambiente (INEA). O órgão foi procurado para saber da continuação das obras, mas até o fechamento desta edição não havia respondido. A não finalização acabou afetando o progresso já feito: áreas que haviam sido dragadas, mas não chegaram a receber o restante das etapas, continuam sofrendo com as cheias. Um exemplo é o bairro Danon, em Nova Iguaçu. Além das enchentes que voltaram a assolar a região, alguns dos moradores que foram tirados de suas casas e estavam recebendo Aluguel Social provisoriamente, relatam o atraso de pagamentos.

Mesmo com todos os problemas enfrentados com os rios da Baixada Fluminense, ainda é possível relembrar o passado exuberante de água doce limpa na Reserva Biológica de Tinguá, em Nova Iguaçu. Apesar de parte da área ser fechada para visitantes, é possível fazer um passeio até o Rio da Cachoeira, que fica no limite da reserva. Com piscinas naturais, churrasqueira e uma vista exuberante da Mata Atlântica, o lugar é perfeito para aproveitar o pouco que restou dessas riquezas.

As fotos que ilustram a matéria dos rios da baixada são do graduando em história da UFRRJ Fábio Palmares e do grafiteiro Douglas. Outras fotos dos artistas podem ser encontradas no perfil do Instagram http://instagram.com/floresbaixada

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