Revista digital criada para discutir e desvendar a Baixada Fluminense

Edição VII

Edição VII

Metalinguagem

Gabriel Fontoura

A professora entrou na sala do sexto ano e logo largou seu material na mesa. Sacou a caneta de quadro branco do bolso, datou o quadro e o inseriu tópico do dia:

“USOS DA METALINGUAGEM”

Assim mesmo, tudo maiúsculo e em letra bastão para evitar o bordão “Professora, tal letra sua é tão bonita, posso fazer igual?”. A ideia era continuar a aula de semana passada, ignorando a dificuldade. Da turma? Não, eram bem espertos até, apesar de arteiros, afinal, sexto ano. 

A dificuldade vinha dela mesmo. Estava num daqueles dias em que você acorda, se olha no espelho do quarto e luta para ignorar o reflexo da cama, pois a vontade de ficar nela é maior que tudo. Um calor chato, mas nessa época do ano todo dia é quente. O ar condicionado e o irônico edredom gelado eram memórias distantes. Respirou fundo, cumprimentou a turma e, depois da habitual divagação discente, entoou com a turma a revisão:

– METALINGUAGEM É UMA LINGUAGEM USADA PARA DESCREVER ALGO SOBRE OUTRAS LINGUAGENS – concluíram juntos, caminhando até a mesa, ela continuou – Muito bem, vocês lembram. Agora, os trabalhos que eu pedi…

– Professora, eu tenho uma dúvida.

Ela já sabia quem era. Virou-se e lá estava o Lucas com a mão levantada. E cada vez que essa mão subia metade da aula já estava perdida:

– Sim, Lucas, pode dizer.

– Professora, um texto que usa metalinguagem não seria também sobre isso?

– Desculpe?

– Se eu escrever um texto usando metalinguagem, ele não seria sobre metalinguagem?

– Que simples – ela pensou – Uma dúvida de verdade e prática de responder. Talvez o dia não seja tão chato, afinal.

Respirando fundo, ela deu a resposta:

– Então…

– Suponhamos, professora.

– Ah, lá vamos nós… – Era bom demais pra ser verdade.

– A senhora pediu um texto. E a senhora sabe como eu amo escrever.

– Nossa, como ninguém, Veríssimo.

– Mas mesmo o autor mais intelectual tem certas dúvidas sobre escrita em alguns momentos de sua longa vida.

– Quão longa ela é mesmo?

– 11 anos.

– Mas é claro – Se ela deixasse, isso ia levar horas – Qual é a sua dúvida?

– A senhora precisa me deixar chegar lá primeiro.

Como ela ousava apressá-lo?

– Fique à vontade.

– A senhora nos ensinou o que é metalinguagem.

– E você aprendeu?

– É a linguagem usada pra descrever algo sobre outras linguagens.

Meio caminho andado.

– Sim, mas você aprendeu como aplicar?

– A senhora pediu um trabalho sobre isso.

– Eu pedi um texto simples.

– Precisamente. E é nele que está a minha dúvida.

– Eu já estava respondendo, mas você…

– Eu tenho pra mim que dúvidas precisam ser sanadas por pessoas mais intelectuais que você.

Espera: isso foi um elogio ou um insulto?

– Que eu?

– Não, professora, que eu.

Parece elogio.

– Ah, que você?

– Sim, e não.

De volta à estaca zero.

– Então?

– “Que você” eu dizia de uma forma geral. Mas agora “você” quer dizer eu mesmo.

Muito bem enrolado.

– Muito bem colocado.

– Obviamente, quem mais inteligente do que eu?

Ela não, pensara. Se fosse, tinha ficado na cama e fingido uma cólica.

– Quem será?

– Minha professora.

– Obrigada por isso.

– Afinal, a senhora passou décadas estudando.

– Normal, pedagogia e letras pra ser chamada de velha.

– Mas hoje eu sou o aluno. E a senhora é a professora.

Mais uma volta ao mundo.

– Pois é, cá estamos.

– E a senhora me pediu o trabalho.

A coitada que está amaldiçoando o momento que passou esse trabalho.

– Eu mesma.

– A luz do saber na vida de nós, seus humildes alunos do sexto ano!

Ou, como chamavam na sala dos professores: castigo da coordenadora.

– Meus anjinhos…

– Por isso, eu lhe trago essa dúvida…

Essa odisseia.

– Que seria?

– Se eu escrever um conto usando metalinguagem, eu não estaria escrevendo um conto sobre metalinguagem?

– Então…

– Como, por exemplo.

Foi tão perto.

– Eu estava falando…

– Digamos que eu escreva um conto, onde eu escrevo um conto.

Metalinguagem.

– Pois sim?

– E nesse conto, enquanto eu escrevo o conto, eu explico como se escreve o conto.

M-e-t-a-l-i-n-g-u-a-g-e-m.

– Entendo.

– Isso é metalinguagem, claro.

– Focado, você.

– Mas se eu estou escrevendo sobre escrever um conto e isso é metalinguagem, escrever um conto COM metalinguagem não é escrever um conto SOBRE metalinguagem?

O silêncio finalmente reinara na sala. Ela parou um tempo apenas olhando para ele, perguntando para si mesma porque o Universo punia professores com alunos chamados Lucas. Por experiências anteriores, ela sabia que tinham chegado ao longínquo final dessa presepada muito bem elaborada pelo menino. Mais ainda, ela tinha certeza onde isso ia dar. Respirando fundo, quebrou o silêncio categoricamente:

– Posso responder agora?

– Claro, professora.

– É.

– Obrigado.

– Então já te expliquei?

– Sim, professora.

– Você fez o trabalho?

– Não, professora.

– Zero.

– Eu já desconfiava, professora.

– Mais alguma coisa?

– Só isso, professora.

– Muito bem, então.

– Obrigado, professora.

– Disponha.


Índice – Edição VII

2. Poesia: “À beira do Sarapuí”, de Rennan Cantuária

3. Reportagem: Muito além da Supervia

4. Reportagem: Rodovias sob nova direção

5. Poesia: “Violência contra mulher”, de Kaká Freitas

6. Galeria: Beto Teixeira – desenho e assemblagem

7. Reportagem: Outros olhares para a cidade

8. Poesia: “Porções”, de Marlos Degani

9. Reportagem: Gramacho: a cidade do lixo parada no tempo a 30 km da praia de Copacabana

10. Galeria: Janaina Tavares – fotografia

11. Conto: “Metalinguagem”, de Gabriel Fontoura

12. Expediente

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