Revista digital criada para discutir e desvendar a Baixada Fluminense

Edição VII

Edição VII

Muito além da Supervia

As principais ferrovias do Brasil cortavam toda a Baixada. A maior parte desse tesouro histórico e urbanístico, porém, sucumbiu. Conheça algumas das antigas linhas e estações que havia na região
Douglas Mota
Porto de Mauá, em Magé, no início do século XX. Autoria desconhecida. Acervo do Instituo Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)

Imagine poder ir de Nova Iguaçu à Zona Oeste do Rio ou alcançar vários bairros de Belford Roxo para além do Centro sem engarrafamentos, sobre trilhos. Na região em que foram construídas as duas primeiras ferrovias do Brasil, esses percursos já foram possíveis. O legado das antigas linhas não se restringe ao saudosismo de se andar em trens puxados por marias-fumaça, mas inclui um tesouro histórico e possibilidades de um projeto mais eficiente de mobilidade numa região densamente povoada.

As linhas que compõem o sistema de trens urbanos da Supervia são apenas uma parte do que já existiu em toda a Baixada. O ramal Japeri é um trecho remanescente da antiga Estrada de Ferro D. Pedro II, enquanto o Belford Roxo já integrou a EF Rio D’Ouro, e a linha de Gramacho/Saracuruna, a Linha Norte da EF Leopoldina. Só que essas estradas abarcavam diversos outros ramais secundários, de Itaguaí a Xerém e contornando a Baía de Guanabara. Boa parte de seus trilhos foram abandonados e engolidos pela expansão urbana, enquanto estações viraram ruínas.

Uma excelente forma de visualizar esse emaranhado de linhas é este mapa, elaborado pela Associação Ferroviária Trilhos do Rio. Clique na imagem para navegar.

Estrada de Ferro Rio D’Ouro

Construída em paralelo ao sistema de abastecimento de água que abastecia a então capital imperial, a EF batizada com o nome do principal rio deste manancial transportou passageiros de 1883 até 1970. Duas partes da antiga linha, porém, ainda funcionam: o trecho entre Pavuna e Belford Roxo, da Supervia, e a maior parte da Linha 2 do Metrô, que corta a Zona Norte carioca. No passado, ficaram extensões que partiam do centro de Belford Roxo para diversos locais.

Estrada de Ferro do Rio D’Ouro. Marc Ferrez. Coleção Gilberto Ferrez – Instituto Moreira Salles

Havia três ramais: São Pedro/Jaceruba, Tinguá e Xerém, que pararam de funcionar entre 1964 e 1970. Além do que hoje são bairros densamente povoados de Belford Roxo (Itaipu, Heliópolis, Areia Branca, entre outros), essas linhas alcançavam também áreas de Nova Iguaçu e Duque de Caxias, como Miguel Couto, Vila de Cava, Adrianópolis e São Bernardino.

A EF Rio D’Ouro ainda guarda algumas estações que resistem à ação do tempo e que, em maioria, se tornaram moradias e depósitos, ainda que pertencentes à União. Apesar do cenário de ruínas, 2021 trouxe uma boa notícia para a conservação desse patrimônio: a Prefeitura de Nova Iguaçu anunciou a restauração de três paradas – Vila de Cava, Tinguá e Rio D’Ouro –, que serão transformadas em centros culturais dentro do Projeto Estações da Cultura. A de Tinguá, aliás, terá uma escola que formará 200 músicos de orquestra, segundo revelou o secretário municipal de cultura, Marcus Monteiro, em entrevista ao canal Resenha Cultural & Cia. Já a estação de Jaceruba atualmente é ocupada como moradia e foi reformada, apesar de também ser tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).

Até o fechamento desta reportagem, a Prefeitura de Nova Iguaçu não respondeu aos questionamentos sobre este imóvel e o prazo de conclusão das obras.

Estrada de Ferro D. Pedro II/Central do Brasil

Além dos ramais Japeri e Santa Cruz da Supervia, a ferrovia que teve seu primeiro trecho inaugurado em 1858 (sendo a segunda do país) perdeu diversas ligações com o interior do Rio de Janeiro e com outros estados. Dentre eles, havia conexões com a Costa Verde e o Vale do Café.

Atualmente, existe o ramal Paracambi, mas já houve outro, homônimo, com quatro paradas na cidade: Guedes da Costa (Bifurcação), Ellison, Mário Bello e Engenheiro Gurgel. Por esse caminho, circulou até 1996 o chamado Trem Barrinha, que ligava Japeri a Barra do Piraí, no Sul Fluminense. Uma das razões para a desativação do serviço de passageiros foi um grave acidente ocorrido naquele ano entre um comboio de passageiros e um trem cargueiro que gerou 16 mortes e cerca de 60 feridos. Algumas das antigas estações ainda estão de pé, mas não há perspectivas para o seu restauro.

Estação Itaguaí antes da desativação do serviço de passageiros. Autoria desconhecida

Outra linha desativada para o transporte de pessoas ia de Santa Cruz, na Zona Oeste, a Mangaratiba, cortando Itaguaí com quatro estações (Itaguaí, Brisamar, Vila Geni e Coroa Grande). Apesar da beleza do percurso, a linha foi desativada em meados dos anos 1980 devido a dois fatores principais: a construção da rodovia Rio-Santos, em 1974, que facilitou o acesso à região; e a implementação de uma rota de escoamento de minérios via trens cargueiros até um porto na Ilha de Guaíba, em Mangaratiba. Mas nem tudo se perdeu: a antiga estação no centro de Itaguaí foi reformada e se tornou a Casa de Cultura da cidade.

Estrada de Ferro Leopoldina

Batizada em homenagem à imperatriz, este sistema inclui a primeira estrada de ferro do Brasil, inaugurada em 1854 por Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), o Barão de Mauá. O antigo trecho (Estrada de Ferro Mauá)  foi incorporado ao sistema como o ramal Guia de Pacobaíba, que partia da estação homônima – no Porto de Estrela, situado na margem mageense da Baía de Guanabara – e seguia até a Fragoso, na Raiz da Serra. Posteriormente, alcançou Petrópolis, mas entrou em declínio após a inauguração da EF D. Pedro II e da Estrada União Indústria, com disputava o transporte para Minas Gerais e São Paulo.

Atualmente, a estação pioneira resiste e é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A manutenção do local é feita pela Prefeitura de Magé, que planeja transformar o sítio histórico em centro cultural, aproveitando a estação e a réplica da Baroneza, a primeira locomotiva da estrada de ferro. Questionada por BaixadaZine, a prefeitura do município não informou a previsão para a realização do projeto.

Guia de Pacobaíba ontem e hoje. Foto 1: Reprodução/IBGE. Foto 2: Filipo Tardim – CC BY-NC-SA 2.0

Da Leopoldina, algumas partes ainda são utilizadas para o transporte de passageiros: os ramais Gramacho/Saracuruna, Vila Inhomirim (que roda sobre um trecho da EF Mauá) e Guapimirim. No entanto, ficou no passado a linha que saía de Saracuruna e circulava a Baía de Guanabara, até Visconde de Itaboraí, permitindo a ligação entre o Rio de Janeiro e Niterói sobre Trilhos. Outro trecho, desativado em 1957, partia do Porto da Piedade, em Magé, passava por Guapimirim e subia até Teresópolis.

Trem descendo a Serra dos Órgãos, entre Teresópolis e Guapimirim. Reprodução/Câmara Municipal de Guapimirim

Parte das antigas linhas compõem os ramais Vila Inhomirim e Guapimirim, que só contam com poucas viagens diárias. Em 2019, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) recusou em votação um projeto de lei que criaria o Programa Estadual de Recuperação da Malha Ferroviária. A proposta incluía a recuperação das linhas Saracuruna-Cantagalo (incluindo o trecho da EF Mauá), Santa Cruz-Mangaratiba e outras no interior do estado, mas foi rejeitada.

Linha Carlos Sampaio – Santa Cruz

Talvez a mais efêmera das vias férreas foi chamada Linha de Austin, que ia de Carlos Sampaio, no distrito iguaçuano, até Santa Cruz, passando por Cabuçu. Inaugurada em 1929 para transportar gado até o matadouro, na Zona Oeste, a linha foi parcialmente encerrada em 1932. Há conflito de informações sobre qual trecho continuou operando até 1948: se de Carlos Sampaio até Austin ou Cabuçu. No entanto, fato é que havia uma rota alternativa de rota ferroviária entre a Baixada e a Zona Oeste pelo outro lado do Maciço do Gericinó, também conhecido como a Serra do Vulcão e do Mendanha.

Estrada de Ferro Melhoramentos / Linha Auxiliar da EF Central do Brasil

Entre 1892 e 1898 foi construída a ferrovia entre Mangueira, na Zona Norte do Rio, e Três Rios, no Centro Sul Fluminense. A partir de Costa Barros, a via cortava diversas áreas da Baixada por meio das seguintes estações: Éden (São João de Meriti), Rocha Sobrinho, (Mesquita), Prata, Andrade Araujo, Caioaba, Ambaí, Santa Rita, Aíva, Amaral, Carlos Sampaio Aljezur, Teófilo Cunha (Nova Iguaçu) e Japeri. O transporte de passageiros foi interrompido nos anos 1970, e hoje, o trecho é utilizado somente por trens cargueiros da empresa MRS Logística.

Outras estações

Parada Fábrica EMAQ (Magé)

A estação foi aberta na década de 1970, ao lado da fábrica da EMAQ Industrial, que produzia locomotivas e guindastes. Em 1986, a empresa pediu falência e a planta foi paralisada, inutilizando a parada de trens.

Guedes da Costa (Paracambi)

Desenho da antiga estação Guedes da Costa, em Paracambi

Desta partia o ramal de Paracambi. Em 1914, ganhou um novo prédio, mas apenas 21 anos depois foi desativada e demolida, quando as linhas do ramal foram duplicadas.

São Mateus (São João de Meriti)

Também chamada de Galdino Rocha durante algum tempo, esta estação foi inaugurada em 1910, em São João de Meriti, e integrava o antigo ramal circular da Pavuna, que ia de Costa Barros, na Zona Norte do Rio, a Thomasinho, também em Meriti. Esse trecho, de acordo com o site Estações Ferroviárias, deixou de funcionar em 1993, quando até os trilhos foram retirados. Desde então, a construção já foi ocupada como moradia e sede da escola de samba Unidos da Ponte e hoje abriga um bar. A linha ainda contava com outras duas paradas na cidade, Engenheiro Belford e a própria Thomasinho, que foram demolidas.

São Bento (Duque de Caxias)

Esta ficava entre Gramacho e Campos Elíseos, em Duque de Caxias. Dela partia uma ligação até Ambaí, em Nova Iguaçu, onde encontrava a Linha Auxiliar. Em 1965, com a desativação da via férrea entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais via Petrópolis, este trecho se tornou o principal caminho ferroviário entre os estados para o transporte de cargas e passageiros, mas seu funcionamento foi interrompido em 1988, também causado por problemas de resistência do solo.

Parada Doutor Eiras (Paracambi)

A parada foi inaugurada em 1964 para atender a antiga Casa de Saúde Dr. Eiras, que chegou a ser o maior hospital psiquiátrico da América Latina. Com o fim do manicômio, em 2012, a estação foi desativada.

Parada Doutor Eiras em 1967. Autoria desconhecida.

Índice – Edição VII

2. Poesia: “À beira do Sarapuí”, de Rennan Cantuária

3. Reportagem: Muito além da Supervia

4. Reportagem: Rodovias sob nova direção

5. Poesia: “Violência contra mulher”, de Kaká Freitas

6. Galeria: Beto Teixeira – desenho e assemblagem

7. Reportagem: Outros olhares para a cidade

8. Poesia: “Porções”, de Marlos Degani

9. Reportagem: Gramacho: a cidade do lixo parada no tempo a 30 km da praia de Copacabana

10. Galeria: Janaina Tavares – fotografia

11. Conto: “Metalinguagem”, de Gabriel Fontoura

12. Expediente

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