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Baixada Valley

Startups moldam o futuro, coworkings criam um ambiente propício ao empreendedorismo e centros de ensino e pesquisa formam uma juventude disposta a transformar a realidade através da tecnologia. Este é o ambiente de inovação que está nascendo na Baixada Fluminense

Douglas Mota

O Brasil ainda não é uma potência no quesito inovação. De acordo com um levantamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações divulgado em outubro, o país só investe 1,27% do produto interno bruto (PIB) em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) — dados de 2016. Na Coréia do Sul, esse percentual chega a 3,14%, enquanto nos Estados Unidos, a 2,74%. A China e o Japão aplicam 2,11% e 3,14%, respectivamente. Já na Europa, a Alemanha se destaca, com 2,93%, e a França, com 2,25%.

Se a verba é baixa, outros entraves ainda surgem no caminho do desenvolvimento tecnológico do país. Segundo a consultoria McKinsey, o registro de uma patente demora, em média, 14 anos para ser aprovado no Brasil. Por aqui, só foram aprovadas sete patentes em 2016, enquanto no Japão foram 456 no mesmo ano. Empreender nessa seara não é para amadores, mas ainda assim se constituíram em diversas cidades do país pólos tecnológicos de primeira linha. Do Parque Tecnológico da UFRJ, no Rio de Janeiro, ao Porto Digital no Recife. Do conhecido ambiente inovador de Campinas, em São Paulo, a Belo Horizonte, onde há até um escritório da Google.

Essas cidades foram beneficiadas por investimentos pesados em universidades e centros de pesquisa. Estar sediado em uma capital ou cidade com altos índices de desenvolvimento econômico e social torna as coisas um pouco mais fáceis. É possível impulsionar o desenvolvimento tecnológico também nas regiões periféricas, como a Baixada Fluminense? Depois de meses de apuração para elaborar esta reportagem, a constatação é de que sim. A região também tem a sorte de contar com universidades e centros de pesquisa e ensino que estão se movimentando na direção de capacitar empreendedores e apoiar a criação de soluções — inclusive para problemas sociais que afligem a própria Baixada e o Brasil.

Nos últimos anos, surgiram os primeiros espaços de coworking com maior diversidade de serviços, inclusive para alavancar os negócios dos clientes. Com o mesmo norte, seguiram faculdades de excelência, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ) e a Unigranrio, onde surgiram programas de fomento, como os hackathons: maratonas de pelo menos 24 horas praticamente ininterruptas  em que equipes se unem para desenvolver soluções para uma problemática estabelecida pelos realizadores. 

A seguir, você lerá sobre projetos tão inovadores quanto aparentemente improváveis, como um plástico comestível ou uma cidade inteligente, mas que são reais e estão sendo produzidos em diversos pontos do Recôncavo da Guanabara. 

Plasticor

Eles se uniram graças a um desafio. Participavam de um evento no campus da UFRJ de Xerém promovido pelo Sebrae e pelo Sinmpan, o sindicato das padarias. Tratava-se de um hackathon, uma espécie de maratona em que os participantes desenvolvem soluções tecnológicas para problemas determinados. Equipes se formaram, e eles sobraram. Desse grupo heterogêneo, com estudantes de nanotecnologia, bioquímica, biofísica e design que nem se conheciam, surgiu a Plasticor, uma startup dedicada a lidar com dois problemas crônicos da humanidade: o desperdício de alimentos e o acúmulo de plástico na natureza.

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Lorena Ballerini mostra produto da Plasticor ao vivo, na GloboNews. Foto: Reprodução

Foram 72 horas de trabalho ininterrupto até chegar à solução: uma embalagem de plástico de origem vegetal, biodegradável, que muda de cor conforme a validade do produto se aproxima e é ultrapassada e que pode até ser comestível. Com esse biofilme, não só as padarias conseguirão evitar que muitos alimentos sejam jogados fora, mas o planeta deixará de receber toneladas de plástico que se acumulariam, principalmente, nos oceanos. “Ser biodegradável não era nem um pré-requisito”, conta a CEO da Plasticor, Lorena Ballerini, que estuda nanotecnologia na UFRJ e mora em Nova Iguaçu.

A ideia inovadora garantiu à empresa nascente uma consultoria do Sebrae, que os ajudou a construir a base do empreendimento. Depois do desenvolvimento do protótipo, o produto entrou em fase de testes e começou a ser usado em estabelecimentos na forma de um selo nas embalagens. A Plasticor também recebeu um convite do coworking WeWork, um dos maiores do Rio de Janeiro, para que se instalassem no local. Eles ainda estão com uma campanha de financiamento coletivo aberta para que possam continuar o desenvolvimento e aperfeiçoamento do produto.

Osiris

Na mitologia egípcia, Osíris era o deus da vida e da natureza, sendo percebido como um dos pais da civilização. Em Duque de Caxias, Osiris reaparece com a missão de impulsionar a ciência e melhorar diagnósticos médicos. Só que desta vez, não se trata de uma entidade sobrenatural, mas de uma equipe formada na UFRJ e que promete revolucionar a medicina utilizando a biologia sintética.

Desse trabalho surgiu o DiagSyn, uma ferramenta capaz de diagnosticar as doenças zika, dengue e chicungunha imediatamente, com base em uma pequena amostra de sangue do paciente. Atualmente, o diagnóstico desses arbovírus costuma demorar e tem custos muito altos, e os médicos acabam se baseando somente nos sintomas para apontar as doenças. A ideia é que no futuro o DiagSyn possa ser usado para identificar outros males além dessas doenças tropicais.

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Equipe da Osiris reunida. Foto: Divulgação

Para que essa tecnologia chegue aos hospitais, ainda é necessário que o protótipo seja validado. Assim, o grupo acadêmico — que reúne professores e alunos dos cursos de biotecnologia, nanotecnologia, biofísica, engenharia de bioprocessos e do MBA em finanças — poderá ser chamado oficialmente de startup. Outro passo importante na trajetória da Osiris é a participação no iGEM (International Genetically Engineered Machine Competition), uma das maiores competições internacionais de engenharia de sistemas biológicos, realizada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Para pagar a inscrição de US$ 6 mil, o grupo criou uma campanha de financiamento coletivo.

Colaboração.Space

O Colaboração.Space, espaço de coworking nilopolitano criado pelo empresário Juan Medeiros, vai além da proposta de oferecer um local apenas para pessoas trabalharem. Fundado em novembro de 2017, o Colab.Space, como também é chamado, proporciona aos empreendedores mentoria, descontos em workshops e produtos e até acesso a investidores e grupos de empresários — o que foi facilitado recentemente, com a fundação da Associação Comercial e Empresarial de Nilópolis (Acenil), também presidida por Juan e que funciona no espaço.

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Em destaque: o fundador do Colab.Space, Juan Medeiros. Instalações do local incluem espaços de trabalho e salas para qualificação. Fotos: Divulgação

“Percebemos que negócios têm carência de infraestrutura corporativa para suprirem suas necessidades”, conta o CEO Juan Medeiros, que presta serviços a advogados, cobradores, agências de comunicação e de marketing, além de startups. Para Medeiros, a demanda por locais de trabalho compartilhado deve crescer, justamente pela carência de estrutura. “Fomos os primeiros da Baixada Fluminense com foco em hub de empreendedorismo, onde o empreendedor entra, se capacita, tem acesso [a investimento] e acelera seus negócios”, diz, completando que o propósito do seu empreendimento é “desbravar e quebrar o status de que em região periférica e suburbana não existem pessoas capacitadas e negócios sustentáveis”.

Casacria

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Fotos: Divulgação

Também inaugurada em 2017, a Casacria dispõe de espaços diversos e eventos de formação para os empreendedores. O espaço possui salas corporativas, auditório, sala de reunião e estúdio fotográfico. Entre os serviços adicionais oferecidos estão cursos e palestras de áreas como marketing e gestão.

Centro de Inovação Tecnológica

Nova Iguaçu não ficou de fora da onda de incentivos à inovação na Baixada. Num espaço de 250 metros quadrados no Shopping Nova Iguaçu está sendo erguido pela prefeitura o Centro de Inovação Tecnológica, o primeiro espaço público do tipo do estado do Rio de Janeiro e o terceiro do Brasil. No local, haverá um espaço de coworking e uma incubadora de startups. Também serão oferecidos cursos gratuitos na área de programação de jogos, design e inglês para estudantes da rede pública municipal. De acordo com o jornal Extra, inicialmente 15 projetos serão selecionados pela própria prefeitura em parceria com o Sebrae e universidades para serem incubados ao longo de seis meses. Em seguida, quando as ideias tiverem sido transformadas efetivamente em startups, haverá uma busca por investidores.

A prefeitura também inaugurou em setembro de 2018 a primeira das dez Casas de Inovação, que estão sendo construídas nos bairros Austin, Cabuçu, Centro, Comendador Soares, KM 32, Moquetá, Posse, Rancho Novo e Vila de Cava. Nas unidades, moradores terão acesso a diversos cursos. Para os estudantes, estão disponíveis formações em criação de aplicativos, programação de jogos, youtuber e introdução à robótica. Já para os adultos com mais de 30 e 60 anos, há treinamentos em inclusão digital.

BaixadaZine não conseguiu contato com a prefeitura de Nova Iguaçu para obter mais detalhes do projeto.

Cefet/RJ de Nova Iguaçu

Enquanto o Centro de Inovação Tecnológica não fica pronto, Nova Iguaçu já ganhou um espaço de coworking vinculado à elite acadêmica da cidade. Em maio, o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ), por meio de sua Incubadora de Empresas Tecnológicas (IETEC), inaugurou o seu próprio espaço, no campus iguaçuano. O local está aberto a empreendedores que vencerem o edital a ser lançado no próximo dia 09 de julho.

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O recém-inaugurado coworking, no campus do Cefet de Nova Iguaçu. Foto: Divulgação

Os ganhadores terão à disposição a posições de trabalho com computadores, espaço para reunião, sistema multimídia e mentoria dos servidores do Cefet/RJ, além de parcerias com a Rio Info (maior evento de negócios e tecnologia da informação do país), Startup Rio (programa de incentivo do governo estadual), Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Sebrae, Firjan, Iniciativa Jovem Shell, Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS), ECOA PUC-Rio e dez prefeituras da Baixada Fluminense, por exemplo.

Duas empresas já ocupam o coworking do Cefet: a empresa júnior Onix Jr Consultoria e a iNoveAI. A primeira é formada por alunos graduandos da instituição, como explica o professor Newton Norat Siqueira, coordenador da IETEC-NI. “Eles oferecem serviços especializados de engenharia nas modalidades mecânica, controle e automação e também produção”, conta. Já sobre a iNoveAI, você lerá a seguir.

iNoveAI

Essa startup nasceu com um baita impulso: em 2017, foram convidados pela Oi para participar de sua aceleradora, a Oito. Na ocasião, a equipe formada por alunos do Cefet/RJ de Nova Iguaçu criou o iCharge, uma solução para recarga de celulares. Funciona assim: o usuário baixa o aplicativo e tem acesso a totens com tomadas e plugs, onde pode contratar um fornecimento de energia para recarregar seu celular, sendo uma mão na roda para quem fica sem bateria na rua.

Hoje a equipe tem seis integrantes, sendo cinco deles moradores da Baixada, dos cursos de Engenharia de Produção, técnico de Telecomunicações, técnico de Informática, uma egressa da instituição e o professor Newton Norat. Este ano, as atividades se voltaram à região onde nasceram: eles desenvolveram o aplicativo Trilhas de Nova Iguaçu, encomendado pela prefeitura da cidade para que os usuários tenham acesso a informações sobre todas as trilhas da cidade, como distância, serviços disponíveis e pontos atrativos.

“Nosso principal objetivo é apoiar o mercado da Baixada Fluminense nas ações de digitalização dos serviços”, conta Luana Rodrigues, que faz parte da equipe e cursa o sétimo período de Engenharia de Produção no Cefet. Ainda em 2019, mais projetos serão concluídos, como o Gastronomia de Nova Iguaçu e o Auto Peças de Nova Iguaçu. Mas os horizontes vão além do poder público, e a startup iguaçuana já começou a ser sondada por empresas, inclusive uma grande seguradora.

Hackathons da Unigranrio

A Unigranrio, uma das maiores universidades privadas da região, também procurou marcar terreno no ecossistema de inovação da Baixada. Já foram dois hackathons realizados no campus de Duque de Caxias, nos quais estudantes da instituição desenvolveram aplicativos  e tecnologias para resolver problemas relacionados aos serviços públicos.

O primeiro, em março de 2018, focou na saúde. Dados do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Baixada Fluminense (Cisbaf) revelam que a região tem um déficit de 7 mil leitos hospitalares e só possui três grandes hospitais. Diante desse desafio, a equipe #Biomarx, formada por alunos de Serviço Social e Biologia, venceu o hackathon com o aplicativo Cegonha On-line. A ferramenta dá acesso a informações como localização das maternidades e unidades de emergência, direitos da gestante e a importância do parto humanizado e do exame pré-natal, além de alertar sobre violência obstetrícia.

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Equipes vencedoras do primeiro hackathon, que desenvolveram soluções para a saúde pública. Foto: Divulgação

Já a equipe Papa-Tudo desenvolveu o Hospital-Score, software que permite ao paciente avaliar com notas diversos serviços das unidades hospitalares e ainda poder encontrá-las facilmente por meio de geolocalização. As informações são compartilhadas com o poder público e podem ser divulgadas nas redes sociais. A equipe Piratas do Grande Rio, por sua vez, criou um app para uso e controle de anticoncepcionais, que também informa os agentes que cortam o efeito da medicação e revelam suas contraindicações. A paciente pode informar a ingestão do remédio e indicar se sentiu algum efeito colateral.

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Este ano, o segundo hackathon abordou a segurança pública. Foto: Divulgação

Em abril, um novo hackathon ocorreu na universidade, desta vez tendo como tema a segurança pública. A equipe vencedora foi a PseudoCoders, responsável pelo aplicativo MARIA (Múltiplas ações realizadas com inteligência artificial). Como o nome diz, a ferramenta usa IA para fazer uma varredura em redes sociais e identificar conteúdos relacionados a crimes de ódio e prever incidentes como ataques terroristas, brigas de torcida e vandalismo em manifestações.

Em segundo lugar, ficou a equipe Nexus, com o projeto RESTARTER. A ideia é fazer uma ponte entre vagas de emprego e ex-presidiários, mostrando ao usuário os seus direitos e quais instituições, provas e plataformas podem ajudá-lo a se requalificar para o mercado de trabalho. Já em terceiro lugar aparece o grupo Brainstorming, com o projeto O Silêncio Acabou. O objetivo da criação é promover a ajuda entre mulheres, principalmente quando se trata de relações abusivas, abrindo espaço à comunicação, acolhimento, aconselhamento, conscientização e defesa pessoal.

Cidade inteligente do Inmetro

Em 2018, começou a ser montada em Duque de Caxias uma iniciativa que vai transformar a Baixada Fluminense em referência nacional no desenvolvimento de tecnologias relacionadas às cidades inteligentes. No campus do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), em Xerém, está sendo construído um ambiente de demonstração dessas tecnologias, onde 20 empresas vão testar suas inovações, envolvendo áreas que vão de energia elétrica a gestão inteligente do esgoto, passando por mobilidade urbana, refrigeração e fornecimento de água.

O projeto, que prevê investimentos de R$ 2,5 milhões e está sendo tocado em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), vai experimentar mais de 100 soluções. O Inmetro fornecerá às equipes desenvolvedoras uma estrutura com incubadora de projetos, laboratórios e salas para capacitação — além do espaço para os testes, que conta com 2,3 milhões de metros quadrados e 47 prédios. O propósito dessa miniatura de smart city é colher os resultados de cada tecnologia e levá-los aos prefeitos de todo o país.

As tecnologias incluem bueiros e lixeiras inteligentes e mini geradores de energias limpas e renováveis, por exemplo, como mostra a animação feita pelo próprio Inmetro.


Índice – Edição IV

1. Aos leitores

2. Poesia: “A poesia é um flerte”, de Alan Salgueiro

3. Reportagem: Destaq Baixada 2019

4. Galeria: Bianca Cunha – ilustração

5. Poesia: “O canto do Rei Baltazar na Baixada Fluminense – ‘O Patrimonializar’”, de Macedo Griot

6. Reportagem: Baixada Valley

7. Galeria: Igor Freitas Lima – fotografia

8. Poesia: “polifemo”, de Lasana Lukata

9. Conto: “Prognóstico”, de Lu Ain-Zaila

10. Expediente

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