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Tempestade

Anna Diamante

A chuva cai forte sobre o telhado. Algumas goteiras formam uma trilha do quarto até a cozinha.      

A tempestade já durava mais de duas semanas sem tréguas.                   

Maria olha os meninos amontoados no sofá. Pareciam com fome. 

Ela suspira, já não sabia mais o que fazer, só havia um pouco de fubá, arroz e farinha.  

O rapaz que entrega as cestas básicas no povoado não viera devido à chuva.   

Ela espia o terreiro pela brecha da janela e só conseguia enxergar os porcos chafurdando na lama. Desanimada olha em direção ao galinheiro. As galinhas já devem ter morrido.  

Maria resolve pegar a toalha que estava sobre a cadeira em um canto qualquer da sala. Iria enfrentar o temporal.  

Talvez conseguisse salvar alguns ovos e aproveitaria também para colher taioba. 

Faria uma papa para os meninos e tinha que ser logo. Em dias de chuva o céu escurecia mais cedo e ela estava sem querosene para o lampião. 

Aquela família estava atravessando momentos muito difíceis. Não faz tanto tempo, há dezoito meses, eles viviam outra realidade, morando em uma casa confortável, próxima ao centro da cidade. Maria, o marido Otacílio e seus dois filhos: Luiz de seis anos e Marcelo de oito. Sentia-se seguros e felizes até que a fatalidade se deu. 

Otacílio, funcionário de uma metalúrgica de médio porte, muito atento já havia sinalizado para falta de manutenção dos maquinários, mas não lhe deram ouvidos. 

Em uma fatídica manhã a máquina decepou dois dedos de sua mão direita. A empresa tinha um histórico de irregularidades, comprovações fiscais e documentações, o que acarretou problemas e contratempos na seguradora, desde então eles vivem buscando seus direitos na Justiça. O advogado diz que a indenização será uma fortuna, só não garante quando ocorrerá. Sem emprego, sem o salário do Otacílio, a família vendeu tudo que podia.  No final já não tinham nem mesmo onde morar, foi quando uma vizinha generosa cedeu-lhes um casebre que era de seus pais em um povoado no interior da cidade. Faz um ano que Otacílio voltou a morar no grande centro, na esperança de retornar ao mercado de trabalho, porém sem sucesso, vive de biscate, morando de favor na garagem de um amigo, sonhando com os dias que virão depois do fim! Fim do processo trabalhista, fim da separação de sua família! O fim de tudo que é ruim, o fim de um grande martírio!

Após o jantar Maria reuniu os filhos na cama de casal. A casa já estava às escuras e os meninos sentiam medo da noite tempestuosa que fazia lá fora. Enganchado no pescoço da mãe Marcelo pede:

— Mãe, fala um pouco como vai ser depois do fim! 

— Depois do fim? Fim de que?

— Da chuva! Respondeu o pequeno Luiz

— Não! O fim do processo do papai! Explicou o menino mais velho.

— Sim! Claro! Respondeu ela. — Seu pai virá nos buscar!

— Ele virá de avião? Indagou Luizinho.

— Não! Claro que não, seu bobo! Não tem aeroporto aqui! Responde Marcelo e continua: — Ele virá com o nosso carro novo! Não é, mãe? Que ele vai comprar?

— Sim! Sim filho, ele comprará um carro novo!

— Nós vamos comer pizza, mãe? E comprar sorvete? — Agora é o Luizinho quem pergunta e Marcelo responde novamente antes da mãe:

— Claro, né, seu bobo! E a gente nunca mais “vamos” comer taioba! Neste instante os olhos daquela mãe encheram-se de água e ela estreita os filhos fortemente em seus braços.

Marcelo divaga como se falasse sozinho: — Depois do fim do processo, eu vou poder voltar a minha escola. Tenho tanta saudade dos amigos, das tias!

— E eu dos chocolates! Mãe! A gente vai poder comer chocolate, “não vamos?” Maria move a cabeça afirmativamente e beija Luizinho na testa. Fica em silêncio temendo que a voz lhe traísse, mas Marcelo lhe obriga a responder:

— Mãe? 

— Sim, querido!

— Lembra da minha festa de aniversário? 

— Sim! Lembro, querido!

— Estou com saudade do meu bolo!

Maria fecha os olhos e deixa as lágrimas molharem seu rosto livremente! Luiz e Marcelo dormem sorrindo imaginando o depois do fim. 

 Marcelo acorda com a luz do sol invadindo o quarto. Feliz o garoto sacode o braço da mãe gritando:

— Mamãe! Mamãe! Acorda, tem sol! Acorda, mamãe! Olha! Tem sol!

Maria despertou com a felicidade do filho. O sol enchia o quarto de luz e de esperança!

Uma voz conhecida gritou o nome dela no portão. Era Cristóvão, o rapaz das cestas básicas, e trazia também um telegrama de Otacílio. O processo finalmente acabará! E ele estava voltando para buscá-los…

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