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Uma quase princesa na Baixada

A Condessa de Iguaçu, filha bastarda de D. Pedro I com a Marquesa de Santos, viveu onde hoje é Comendador Soares
Maria Isabel em 1852. Pintura de Krumholz, do acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Reprodução/domínio público.

Um dos maiores bairros de Nova Iguaçu foi lar de uma controversa – e bastarda – descendente da família imperial brasileira. Maria Isabel de Alcântara Bourbon, a Condessa de Iguaçu, foi a filha mais nova gerada pelo caso do imperador D. Pedro I com sua mais famosa amante, Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos. A nobre chegou a viver na antiga Fazenda Japeaçaba, local em que posteriormente surgiu o bairro de Comendador Soares.

Maria Isabel nasceu em 1830, em São Paulo, e se casou com Pedro Caldeira Brant, o Conde de Iguaçu, em 1848, quando assumiu o título de nobreza e se mudou para Japeaçaba, segundo conta o historiador Moduan Matus no livro “História de Nova Iguassú: Recortes de uma cronologia ilustrada de 510 anos” (Traço & Texto).

Apesar do casamento ter gerado cinco filhos, a infelicidade foi a marca do casal. O historiador Paulo Rezzutti, autor da biografia “Domitila: A verdadeira história da marquesa de Santos” (Geração), revela que a união durou cerca de 14 anos. Após o período, os Iguaçus passaram 12 anos separados até a Condessa pedir o divórcio, em 1874, alegando que havia sido expulsa da própria casa pelo marido e obrigada a pedir dinheiro para se manter. Pedro Caldeira Brant também foi acusado de agredir e ferir a Condessa e traí-la com empregadas e outras mulheres.

O divórcio do casal foi concedido dois anos depois, em 1876, curiosamente, a contragosto da Marquesa de Santos, que havia abandonado seu primeiro marido para ficar com D. Pedro I. Disse Domitila em carta endereçada à filha antes do divórcio: “Já não tenho expressões para vos pedir e vos dizer que não há quem não sofra com seus maridos, as mais virtuosas sofrem, quanto mais aquelas que dão motivos.”, alfineta. “Estais sem juízo de todo, e se vos separares de vosso marido separai-vos de vossa mãe, isto vos digo de todo o meu coração”, concluiu a Marquesa.

Em outra carta, de 1851, Domitila de Castro se queixa com o genro, que teria usado jóias de sua filha – não se sabe se seriam de Maria Isabel ou de sua irmã, Isabel Maria, a Duquesa de Goiás, criada na Europa – para pagar dívidas. “Estou bem convencida de que o senhor é daqueles homens que não olham para suas dívidas e nem para o futuro. Eu, sendo mulher, lembro-me do futuro, não tenho expressões com que lhe explique os meus sentimentos (…) [não] lhe entreguei uma filha que muito estimava de tão boa vontade e que ao mesmo tempo que V. Mce. não é capaz de fazer o menor sacrifício para me tranquilizar e tirar-me da inquietação em que vivo (…) ”, escreveu.  

Em 1896, Maria Isabel morreu no Rio de Janeiro, e seus restos mortais foram levados para São Paulo. Segundo Moduan Matus, suas terras na região foram, então, compradas pelo Comendador Soares, uma das principais figuras da história iguaçuana e que veio a batizar o bairro que surgiu no local. A velhice da Condessa marcou um momento de decadência em que perdera a beleza que impressionou o poeta Álvares de Azevedo e demonstrara ressentimento com relação aos integrantes da Corte e ao imperador, D. Pedro II, seu meio-irmão.

A Condessa de Iguaçu com um dos filhos.

Presença da família na Baixada

O casamento dos Iguaçus, porém, não foi a única ligação da família com a Baixada Fluminense. Moduan Matus lembra que o primeiro marido de Domitila, o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça  (1789-1833), também teve como destino as terras de Iguaçu. Após esfaquear sua então esposa duas vezes, inclusive quando grávida de seu terceiro filho, foi julgado, absolvido e logo após o fim do processo, se mudou para o Rio de Janeiro, onde se envolveu com uma iguaçuana. Com ela, o militar teve dois filhos e, após a sua morte, foi enterrado em Marapicu.

A família do Conde também já estava presente na região desde 1815, de acordo com o historiador Genesis Torres, em coluna publicada no jornal “O Dia” em 2013. Na ocasião, o pai de Pedro, Felisberto Caldeira Brant, o Marquês de Barbacena (então Visconde), grande político do Primeiro Reinado, adquiriu a Fazenda do Brejo. O local fica às margens do rio Sarapuí, onde hoje é Belford Roxo. Essas terras passaram para o filho em 1842, após sua morte, e em 1851 foram vendidas para o comendador Manuel Coelho da Rocha, de outra importante família da região e cujo sobrenome batizou o distrito em São João de Meriti.

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