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Um papo com Lírian Tabosa

Lírian Tabosa – Foto: Isabela Kassow /Diadorim Ideias

As quase nove décadas de vida da poeta Lírian Tabosa não afetaram sua esperança. Um dia, quer ver o Brasil se transformar num “país de leitores”. Nascida em 1932 e com sete livros de poesia publicados, a poeta cearense celebra a pulsão artística da cidade em que vive desde 1956, Nova Iguaçu, e cobra mais apoio das autoridades culturais aos artistas locais. Em entrevista à BaixadaZine, Lírian contou um pouco de sua rica história. Nesta edição, foram publicadas duas obras de Tabosa: “Recordando” e “A santa hipocrisia”, ambas disponíveis no livro “De lá pra cá – Memórias e poemas”, lançado pela Editora Entorno, em 2014.

[A conversa foi apenas uma parte de um papo muito maior com a autora, em que contou sobre toda a sua vida: do coletivo de poesia Desmaio Públiko, nos anos 90, ao exílio na Bolívia durante a Ditadura Militar e sua prisão naquele país no período do assassinato de Che Guevara, de quem foi amigo. Essas e outras histórias podem ser apreciadas na biografia “Lírian” (Editora Entorno)]

Como e quando começou sua história com Nova Iguaçu e a Baixada Fluminense?

Cheguei em Nova Iguaçu em 1956. Foi uma dificuldade muito grande morar aqui em Cabuçu e trabalhar e estudar lá embaixo, no Rio. Então, passávamos a semana lá e, nos finais de semana, vínhamos para Cabuçu. Os anos foram passando, e as coisas melhorando, até que de repente houve o golpe militar e, com ele, tive que fugir do Brasil. Na volta do exílio fiz os primeiros contatos em Nova Iguaçu: [com] os poetas Moduan Matus e Cézar Ray, o artista plástico Raimundo Rodrigues – que trabalhou muitos anos na Globo, [o músico] Roberto Lara, vários artistas de Nova Iguaçu, e fizemos um grupo unido, fantástico, em que onde estava um, estavam todos apoiando. Foi assim o meu princípio de vida aqui.

Quando a senhora se descobriu poeta?

Comecei a escrever poesia muito jovem, aos 15 anos, nas primeiras decepções amorosas. A gente vê um rapazinho bonitinho e se encanta…. Essas coisas de mocinha. Depois a gente vai ficando mais velha e isso vai melhorando. Essas primeiras decepções inspiraram alguns poemas interessantes.

De onde vem essa paixão pela poesia, que dura tanto tempo?

A inspiração vem da sensibilidade de cada um. Determinado quadro pode lhe inspirar, lhe causar um pavor, uma esperança, uma dúvida. Depende do quadro que se apresenta na vida da gente. A própria vida nos leva a despertar para escrever alguma coisa. Qualquer coisinha leva o poeta a pegar uma caneta e um papel e escrever alguma coisa. Eu aproveito esses lances e guardo. Muitos dias, até meses depois, lembro [dessas ideias], aprimoro e publico.

Qual o desafio de ser poeta na Baixada Fluminense?

Nova Iguaçu tem artistas em tudo quanto é lado. Tem a Tereza Petsold, de dança, o Afrânio Peixoto – grande poeta que fazia poesias metrificadas. Para onde você olha, tem arte. O que não tem é apoio, mas os artistas existem. Foi difícil, por exemplo, a gente conseguir a Casa de Cultura. Moduan e eu trabalhamos muito nesse sentido. Ele fala assim: “Passamos até fome, não é, Tabosa? Nós almoçávamos cultura e jantávamos cultura”.

O que deveria ser feito pelo poder público para incentivar a cultura na região?

As secretarias de cultura devem dar mais assistência aos artistas e reservar, inclusive, uma verba para auxiliá-los. Sem esse apoio financeiro fica difícil se publicar, [de se fazer] tudo. 

Que horizontes para a cultura a senhora vislumbra para a Baixada e o Brasil?

Seja em relação a Nova Iguaçu, à Baixada Fluminense ou ao Brasil como um todo, o primeiro passo seria uma campanha para que o Brasil se torne um país de leitores. Acontecendo isso, tem tudo para a cultura se desenvolver.

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