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Sallis

Douglas Mota

Apesar de paulistano de nascimento, o artista multifacetado Silas Sena fincou suas raízes em Nova Iguaçu, seu “ponto de partida para todos os cantos”, como define. “Nova Iguaçu é minha paixão, sou um entusiasta da Baixada Fluminense e pretendo continuar aqui enquanto eu viver”, conta. É na capital da Baixada que se concentra a maior parte de sua obra no estilo lambe-lambe, técnica surgida no século XIX que envolve o recorte e a colagem de cartazes no espaço urbano.

 As colagens de Silas, ou ՏᗩᒪᒪIՏ – como assina suas obras –, estão espalhadas pelo Centro da cidade, em áreas como o calçadão, os becos próximos ao camelódromo, a passagem subterrânea sob a linha férrea conhecida como “buraco do Getúlio”, a Escola de Artes Teatrais Paulo Falcão e no bairro de Austin, onde fez colagens em parceria com a artista Pietra Canle. Fora da região, ele ainda realizou trabalhos no Rio Grande do Norte e em Campinas, no interior de São Paulo.

Obras como o famoso cartaz ObamaHope, usado na campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos em 2008, inspiraram-no a criar artes em lambe-lambe. Também pavimentou esse caminho o fato de ter cursado Artes Visuais, na Unigranrio, e a familiaridade com arte digital e softwares de ilustração e edição de imagens. Para Silas, dentre as artes de rua, o lambe-lambe é mais democrático, por exemplo, do que grafite, por demandar menos materiais e técnicas. “Foi uma linguagem que me abraçou”, diz.

Ele também abraçou a arte e planeja montar uma rede de artistas de lambe-lambe na Baixada Fluminense, o Lambes BXD. “Quero desenvolver arte na minha comunidade, para o meu povo. Não vou fazer arte para uma galera que já tem acesso, vou fazer aqui, para os meus”, afirma, referindo-se ao êxodo de artistas da região para o Centro e a Zona Sul do Rio de Janeiro, ainda que reconhecendo as dificuldades de fazer arte na Baixada.

Um dos propósitos de sua arte é ser “um ponto de divergência na realidade”, deslocando um pouco o espectador, preso numa rotina de trabalho que o impede de vivenciar a cidade. “Fazer arte no espaço urbano é uma forma de reivindicar esse espaço que é nosso, mas que às vezes nos esquecemos que é”, afirma Silas, resumindo a proposta de seu trabalho em “ser um ponto colorido numa vivência cinza”.

O adjetivo da primeira linha desta reportagem se mostra verdadeiro quando Silas Sena expõe suas outras frentes de trabalho artístico: teatro, música e literatura. Em Nova Iguaçu, ele integrou o antigo coletivo Resistência CTI, atual Insulto, apresentando peças teatrais como “Orfeu de Barro”, “Libertare”, “Arquivo-6416” e “Tomates”. Pelo grupo, que ocupava um posto de saúde abandonado em Austin, apresentou a esquete “O beco das vadias”, de sua autoria, no Teatro Dulcina, na Cinelândia.

Ele também compõe canções, que começaram a surgir quase como um processo terapêutico, em que “exasperava todos os problemas afetivos ou paixões fulminantes” nas composições, que podem ser apreciadas em saraus que frequenta. Outras músicas integram a trilha sonora de peças, como a “Libertare”, toda musicada por ele em parceria com Érika Bernardo.

Atualmente, prepara o lançamento do livro “Contos Velhos de Lugar Nenhum”, pela Editora Ascensão, e já escreve uma segunda obra com histórias ambientadas na Baixada Fluminense, além de integrar os coletivos Quintal dos Criadores e CADE, que recentemente lançou o curta-metragem “Aqui de dentro”.

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